Teorema (1968). Foto: Divulgação.Por Josiane Orvatich
Pier Paolo Pasolini (1922-1975), diretor italiano, estreia no cinema como roteirista em 1953 com o filme A mulher do rio, de Mario Soldati. Três anos depois, auxilia Federico Fellini no roteiro de As noites de Cabíria, e ainda escreve e colabora em outros roteiros antes de dirigir seu primeiro filme, Desajuste social, em 1961. Poeta e escritor, Pasolini estudou literatura italiana, filologia românica, história da arte e pintura. Dirigiu revistas e publicou livros antes e depois de seu envolvimento com a linguagem cinematográfica.
Desajuste social deu início a uma série de polêmicas em torno da obra do poeta e cineasta Pasolini, causando estranhamento e, inclusive, repulsa. Além de filmar na periferia de Roma com não-atores e parte da equipe iniciante – seu assistente de direção era o jovem Bernardo Bertolucci –, o filme não trazia a redenção esperada para o desfecho das tramas italianas do neo-realismo que abordavam a questão do proletariado, como Roma, cidade aberta de Roberto Rosselini ou Ladrões de bicicleta de Luchino Visconti.
As tendências do neo-realismo não era o que a obra de Pasolini iria seguir. Seu proletariado permaneceria no martírio, inaugurando uma reflexão sobre a moral e não mais sobre a psicologia individual dos personagens. A burguesia passa a ser um dos elementos fortes desta moral a ser investigada e o elemento da religiosidade e da sacralidade contida neste universo também passam a aparecer.
Em Teorema, de 1968, encontramos a presença da religiosidade cristã afetando a instituição burguesa capitalista – contexto da década de 1960, quando a influência marxista intensificava a divisão da sociedade em proletários e burgueses –, através da metáfora de um visitante que mantém relações sexuais com uma família inteira, pai, mãe, filho, filha e a empregada da casa, transformando suas vidas e desfazendo seus laços ao ir embora. Esse visitante, nas palavras de Pasolini “não é simplesmente um hóspede que vai passar uma estadia numa família de amigos milaneses, é a alegoria de Deus”.
A forma com que o visitante toca cada um dos integrantes da família, incluindo na instituição familiar a empregada, se mostra com poucas palavras do visitante, interpretado por Terence Stamp, que carrega consigo um livro do poeta Rimbaud. Sua facilidade em se entregar a todas aquelas pessoas ao mesmo tempo torna sua presença essencial para a família – quando ele está prestes a partir cada um faz sua confissão de paixão e desespero.
A crise da família burguesa já sem o visitante se manifesta nos novos rumos dos personagens, em que cada um reencontra agora sua própria história, sem os laços morais que os unia. A empregada retorna ao seu vilarejo onde passa a realizar milagres e termina por se enterrar viva, a mãe procura outros homens com quem manter relações sexuais, a filha é internada ao ficar catatônica, o filho, que se descobre homossexual como o pai, dedica-se à arte, o pai, dono de uma grande fábrica entrega-a a um de seus funcionários, despe-se e corre nu aos gritos, na cena final do filme, lembrando a famosa tela de Munch, O grito.
O filme ganhou o prêmio OCI – Office Catholique du Cinéma – no Festival de Veneza, que, porém foi retirado depois de Pasolini ter sido ameaçado de prisão pelo governo da Itália por sua realização. Perseguido toda a sua vida enquanto realizava seus filmes por ser considerado “decadente” – não só por retratar o proletariado e a sexualidade com esses tons de crítica social, mas por ele mesmo assumir sua homossexualidade – foi assassinado por um garoto de programa em 1975, logo após realizar o filme Saló, ou os 120 dias de Sodoma, uma metáfora do fascismo, baseado na obra original do Marquês de Sade, no contexto da Revolução Francesa.
O assassinato político disfarçado de crime sexual, com toda a sua carga punitiva, é uma hipótese possível. Qualquer semelhança com as prisões do próprio Marquês não é mera coincidência – lembrando que ele foi o único não liberto no episódio da Queda da Bastilha.
* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 011, setembro/ 2009, seção Acervo Básico.