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Deixe ela entrar (2008). Foto: Divulgação.

Jogos e ambiguidades em Deixe ela entrar
Por Josiane Orvatich

Logo no início do filme de Tomas Alfredson, Deixe ela entrar (2008), a imagem de Oskar (Kåre Hedebrant) surge intermediada pelo vidro de uma janela. Por esse mesmo vidro Oskar verá Eli (Lina Leandersson), pela primeira vez, chegando num táxi. O vidro aparecerá ainda muitas vezes no filme, como quando Oskar procura Eli no pátio depois de ter emprestado a ela o cubo mágico, ou quando Eli o observa na piscina e, numa das cenas centrais do filme, quando Oskar entra na casa dela e lhe pergunta se é uma vampira.

Os sentidos desse vidro se desdobram, o primeiro é a própria referência ao cinema, à representação da imagem colocada já de início ao espectador. Vidro, como representação, que nos sensibiliza para a entrada na narrativa, na fábula e na imaginação. Há outro sentido referente à comunicação, o vidro como obstáculo, portanto elemento da incomunicabilidade – entre o feminino e o masculino, entre pais e filhos, entre o homem e o sobrenatural. A estes dois sentidos eu acrescentaria um terceiro que contém e reúne o primeiro e o segundo, questionando-os. O vidro não como barreira, mas como a intermediação própria da comunicação e da linguagem. O vidro, portanto, como a materialização dessa linguagem, com toda a ambiguidade de sua transparência e opacidade, e como a possibilidade da comunicação, sendo esta mediada por representações.

Pouco depois da cena da resposta de Eli, sim, ela é uma vampira, quando as suas mãos se encontram com as de Oskar tendo o vidro como componente do jogo de encontro, vemos Oskar e sua mãe escovando os dentes, num momento lúdico e divertido, em que as escovas de dente representam o elemento que, como o vidro, possibilita a comunicação. É como se ele tivesse aprendido com Eli como se joga o jogo da convivência e da identidade e pudesse, agora, relacionar-se com a mãe.

A representação acontece, assim, como um jogo de espelho, exatamente como Oskar e a mãe brincam, imitando a forma como o outro escova os dentes, ou como não nos cansamos de ver, classicamente intrigante, no quadro As meninas (1656/57), de Velázquez, em que o espectador está no lugar da imagem refletida do casal real, Filipe IV e sua esposa. Outra imagem que surge de forma especular são os pés descalços de Eli e os pés muito agasalhados do amigo/namorado do pai de Oskar, evocando uma relação entre eles, como possíveis amantes. A ambiguidade fundamental da representação nos faz ver que o espelho não remete à identidade como cópia, mas a imagens múltiplas e carregadas de dúvidas. Quando Eli insiste em dizer que não é uma menina, não conseguimos eleger um outro significado privilegiado: ela é uma vampira, um menino, uma mulher, já que tem 12 anos há muito tempo – ou ainda, pensando na força afirmativa da negação em Freud, ela é uma menina.

A questão da identidade suscitada pela representação significa que ser idêntico não é ser o mesmo. É poder filiar-se a uma construção de sentido impessoal e coletiva (a linguagem, a história do cinema, o mito dos vampiros) acrescentando tonalidades e expressões particulares. E esses sentidos, tais como as imagens e jogos, serão transitórios: Oskar está jogando o jogo da velha com o pai quando seu amigo/namorado se aproxima, então o pai interrompe esse jogo e passa a jogar, em outra acepção, com o seu “convidado”, tendo como imagem duplicada que os representa a do copo em que tomam uma bebida.

A ambiguidade da representação está também presente no imaginário sobre os gatos e o sangue. O gato dócil e selvagem, afetuoso e frio, e o sangue impuro da menstruação, desde a Antiguidade e acentuado na Idade Média, ou o sangue da aliança, judaico e cristão.

Todas essas representações remetem ainda ao intrincado jogo das relações amorosas. Se lembrarmos de Fome de viver (1983), de Tony Scott, a vampira Miriam (Catherine Deneuve) promete vida eterna aos seus amantes/vítimas, o que John (David Bowie), um deles, descobrirá não ser tão verdadeiro e simples assim, pois seu corpo não resistirá, sobrevivendo uma alma atormentada e aprisionada que ela colecionará em seu sótão. Em Deixe ela entrar, as fronteiras entre algoz e vítima são mais tênues, o consentimento da relação e a identidade estão presentes. Se há sedução e necessidade em Eli, há também desejo em Oskar, afirmando, os dois, uma vontade de viver e de estarem juntos que enfrentará todas as consequências, ou como dirá Eli: “é partir e viver, ou ficar e morrer”. Eles partem.

Novembro, 2011.


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