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Zazie no metrô
Zazie no metrô


Zazie no metrô (1960). Foto: Divulgação.

Zazie de carona no metrô de Louis Malle
Por Mariana Sanchez

Para estrear a coluna Do livro à tela, cuja proposta é discutir filmes gerados a partir de obras literárias, optei pelo irreverente e pouco assistido Zazie no metrô (1960), dirigido por Louis Malle e adaptado do livro homônimo de Raymond Queneau que em 2009 completa 50 anos de sua publicação. Antes de comentar as obras, porém, é importante refletir sobre esta passagem de uma linguagem a outra, já que as escrituras fílmica e literária trazem códigos e sistemas diferentes, próprios de suas disciplinas. Portanto, mais do que debater sobre fidelidades ou adultérios que possam decorrer dessa transposição, as análises publicadas nessa coluna pretendem identificar a natureza de tais obras e as soluções defendidas por seus autores para resolver o problema da adaptação.

O termo, aliás, talvez não seja o mais apropriado. Segundo o crítico e realizador argentino Sergio Wolf no livro Cine/Literatura: Ritos de Pasaje, a palavra adaptação teria uma conotação médica – da literatura como objeto inapto, incapaz de se integrar a um sistema diferente sem incorrer em reduções e perdas, definindo o cinema como uma “pílula tranquilizante da literatura” – e outra material – como se o formato de origem (livro) devesse ser moldado para caber em outro formato (filme). Portanto, o termo mais pertinente na opinião de Wolf seria transposição, justamente por designar a ideia de traslado e transplante, de trazer algo para outro lugar.

Dito isso, voltemos ao filme que Louis Malle transpôs do livro de Raymond Queneau, já no ano seguinte ao seu lançamento. É preciso reconhecer que Zazie no metrô assim como O almoço nu, de William Burroughs poderia ser considerado um livro absolutamente infilmável. Isso graças à linguagem experimental adotada por Queneau, que constrói ambiguidades, paródias e antífrases essenciais ao texto, ao passo que implode a gramática francesa tradicional, oscilando entre o erudito, a fala das ruas e uma proliferação de neologismos sonoros. Entretanto, Louis Malle, o mais marginal e menos aceito dos diretores da Nouvelle Vague, parece ter encontrado o equivalente visual para a anarquia linguística proposta por Queneau ao traduzir artifícios literários em cinematográficos note que outros títulos de Malle, como Trinta anos essa noite (1963), Perdas e danos (1992) e Tio Vânia em Nova Iorque (1994) também derivaram de páginas impressas.

Para construir essa comédia ao mesmo tempo crítica e naif, Malle manteve-se fiel ao texto de Queneau, amplamente aproveitado mesmo nos diálogos, além de incorporar elementos fantásticos, gags visuais e o humor físico típico do cinema mudo. Pode-se dizer que tudo está sugerido no texto original, mas Louis Malle se permitiu (des)montar a Zazie de Queneau a seu modo, deslocando passagens do livro, interferindo na caracterização da protagonista, potencializando a comicidade da trama a partir de novos significantes e criando personagens – como a loira a la Marilyn Monroe que entra e sai de banheiros públicos e o onipresente batedor de carteiras – possível referência a Pickpocket, filmado um ano antes por Robert Bresson, de quem Malle foi assistente no início de sua carreira.

Já aos quatro minutos de projeção, Malle apresenta ao espectador o perfil e o problema de Zazie: ela tem 12 anos, vive no interior da França e está em Paris aos cuidados do tio Gabriel, enquanto sua mãe encontra o namorado durante o fim de semana. Apesar da tradição turística da cidade, a menina só tem interesse em andar de metrô, mas uma greve dos metroviários frustra seus planos. Os 85 minutos restantes dão conta das peripécias da garota – desbocada, incapaz de pronunciar uma frase sem incluir um “caralho”. Malle confere ao filme um ritmo alucinante, repleto de jump cuts e cenas em fast foward, como que conduzido pela vitalidade de uma criança encapetada, à solta na capital cosmopolita. Este efeito é conseguido também por meio da composição quase barroca dos quadros, sempre trazendo movimentação interna e acontecimentos simultâneos sobrepostos em camadas. A presença de Zazie é tão marcante na trama que Malle opta por multiplicá-la: na cena em que ela conversa à mesa com o tio, o uso da quebra de eixo cria um efeito de duplicidade, como se houvesse duas Zazies. Na passagem em que ela rouba uma calça jeans no mercado das pulgas e foge de um desconhecido, a enfant terrible atira a calça para si mesma, dando a impressão de que o homem persegue duas garotas, ao invés de uma.

A alteração do tempo e do espaço são dois recursos bem explorados por Louis Malle ao longo do filme que reforçam o tom surrealista da obra de Queneau. Da mesma forma que a menina não leva cinco segundos para trocar de roupas e calçar os sapatos, Zazie devora sua porção de batatas fritas em uma fração ainda menor de tempo. Por sua vez, na sequência em que ela foge do suposto molestador de crianças, a contiguidade exagerada dos cenários rua e apartamento de Gabriel também causa estranheza.

Por falar em estranheza, Malle não abre mão das ambiguidades recorrentes no livro de Queneau. De fato, são muito tênues as fronteiras entre os mundos adulto e infantil, masculino e feminino. Sabe-se que o tio Gabriel trabalha como dançarino travestido de mulher em uma boate, embora seja casado com a bela Albertine, assediado por um grupo de turistas lindíssimas e use perfume masculino – que Zazie aprecia e pede para usar um pouquinho atrás da orelha. Quando Gabriel sai de casa e esquece o batom, quem o avisa é sua esposa, que promete presenteá-lo com um novo estojo de unhas revestido com couro de crocodilo. Albertine, ao mesmo tempo em que faz os serviços domésticos e mantém uma postura servil, na última cena do filme é chamada de Albert pela mãe de Zazie e de senhor pela própria. Albertine é capaz ainda de ruborizar a garçonete Mado Ptits-Pieds ao mencioná-la nua. A dualidade criança x adulto também aparece no filme de Malle. Enquanto Zazie é independente, não respeita os mais velhos e fala como os adultos, estes agem feito crianças, a ponto de serem repreendidos com escárnio pela menina de 12 anos. Charles, o motorista de táxi, confessa a ela que não se sente preparado para o casamento, e se ofende quando Zazie faz perguntas não muito adequadas à idade dele. O papagaio Laverdure aparece mais como um reforço da ladainha dos adultos, sempre pronunciando o bordão “falar, falar, você só sabe fazer isso”. Mas Zazie não é nem criança nem adulta. Ela é um ser irreal, mágico, a própria contradição da infância e da maturidade, como apontou Roland Barthes. Ela é única, insubstituível. Na cena em que a garota tira um cochilo e sonha, todos os personagens da trama aparecem com papéis trocados: Gabriel dirige o carro da viúva Mouaque, Gridoux pilota a moto de Albertine, a viúva fiscaliza o trânsito no lugar de Trouscaillon – o camaleão, dono de muitas faces, que por sua vez também pilota a moto de Albertine. Somente Zazie permanece autêntica e imutável – a despeito da última frase do livro/filme.

As cenas de perseguição filmadas por Malle são responsáveis por alguns dos melhores momentos do longa, fazendo referência à linguagem dos quadrinhos e desenhos animados, com direito a dinamites e bombas explodindo, paneladas na cabeça do vilão e toda a sorte de efeitos especiais, dos mais ingênuos possíveis. Engana-se, no entanto, quem classifica Zazie como mera comédia juvenil, já que o filme é uma excelente sátira aos costumes, ironizando a profissão do artista, a seriedade dos adultos, o discurso da guerra e o turismo banal – novamente o efeito da quebra de eixo mostra uma mesma construção arquitetônica, que Gabriel confunde ora com o Pantheón, ora com os Invalides, descobrindo mais tarde ser a Sainte-Chapelle. Malle, transcendendo o tom absurdo da obra original, planta uma série de elementos nonsense no filme, como um urso branco tremendo de frio no topo da torre Eiffel, botas que tocam músicas, a pele do sapateiro Gridoux convertida em negra durante um único frame, uma mulher sendo apunhalada no canto do quadro sem ninguém notar. Tudo isso pode parecer despropositado, atirado gratuitamente na trama. Mas se diante de tais aberrações alguém reivindicar o sentido e a verdade, Roland Barthes defenderá que só o absurdo pode representar a natureza inapreensível da linguagem. Já o tio Gabriel dirá que a verdade não passa de “conversa fiada”. Ainda mais absurdo, porém, é a antífrase máxima dessa história: o fato de Zazie jamais realizar seu sonho de andar de metrô, contradizendo o próprio título das obras.

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 010, agosto/2009, seção Do livro à tela.


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