Proibido proibir (2007). Foto: Divulgação.Por Murilo Wesolowicz
Os protagonistas são dois garotos e uma garota, estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O primeiro estuda sociologia, o segundo medicina e a última arquitetura, cada um situado em uma área do pensamento: humanas, biológicas e exatas, o que já aponta para suas diferenças.
Leon é o melhor da classe, por ser negro esforça-se para que seja assim. Desenvolve atividades sociais e pesquisas em uma favela, é flamenguista, gosta de Cartola, divide uma pequena casa com Paulo e arrumou uma nova namorada. Paulo é botafoguense, faz residência em um hospital, despreza a política, tem uma réplica de A lição de anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt, gosta de ácidos, maconha e futuramente irá se apaixonar por Letícia. E esta é a nova namorada de Leon, gosta de apreciar a arquitetura do prédio da universidade e da cidade, mora com os pais, não torce por nenhum time e dos três é a única que tem um carro e certo conforto financeiro.
Nos primeiros minutos do filme os três se encontram à beira da piscina da Universidade e fica claro que ali está nascendo um triângulo amoroso, para tormento dos envolvidos. Esse triângulo não irá se consumar durante a história e, por isso, o sentimento de incerteza fica a todo o momento ressoando. “É proibido proibir”, sempre diz Paulo, mas qual é o alcance dessa frase? Ela se limita às restrições que a sociedade impõe ou também aos desejos aflorados em silêncio? A profissão, a família, a ética, a política, a sociedade são os assuntos que irão gerar os conflitos constantes desses jovens.
Paulo conhece, no leito do hospital, Rosalina, uma paciente com leucemia. Vez ou outra o aspirante à médico presenteia a enferma com cigarros de maconha, para aliviar a dor, o que faz Rosalina ter profundo carinho e confiança por Paulo. Confiança que encoraja um pedido: se Paulo poderia ir até a favela ter notícia dos dois filhos que não foram visitá-la. Ele aceita e descobre que um dos filhos, camelô, foi morto pela polícia a pedido dos comerciantes locais e o outro, Cacazinho, testemunha ocular deste crime, está escondido na casa de uma amiga, pois os policiais estão procurando por ele.
Letícia e Leon tomam conhecimento da complicada situação pela qual passa o garoto. O apelo desesperado de Letícia para ajudar o menino concomitante com a morte de Rosalina faz com que Paulo e Leon decidam agir. É preciso tirar Cacazinho da cidade. Leon sugere que ele vá morar com sua mãe em Brasília.
Leon tenta, sozinho, resgatar Cacazinho na favela. O plano dá errado e o garoto é assassinado pelos policiais. Leon é baleado, mas consegue fugir e é operado em casa por Paulo. Agora é Leon quem a polícia procura. Os três resolvem, então, seguir para Brasília em fuga.
Durante todo o filme há essa mistura entre os conflitos pessoais – a paixão mal definida do triângulo – e os conflitos por causas públicas – qual o papel que cada um poderia desempenhar diante da realidade social do País. Após operar o amigo, Paulo, ainda muito tenso, conversa com Letícia e pergunta como ficará a relação deles. Ela responde que não há relação alguma e sai. Ele olha para Leon ferido na cama e, em um ímpeto, soca a porta. Talvez pela impossibilidade de ter Letícia, talvez pela grande injustiça cometida contra o seu amigo ou contra a família de Rosalina. Talvez por não saber mais o que fazer.
Durante uma parada para descansar em meio à viagem de fuga para Brasília, Leon decide voltar para o Rio de Janeiro ao invés de se esconder, o que deixa Paulo irado e faz com que ele agrida Leon. Letícia tenta intervir, os três se socam, se chocam, se apertam, querem um entrar no outro. E nesse abraço mudo e desesperado é onde eles encontram alguma resposta e alguma paz, mesmo que efêmeras.
“Lugar bonito pra caralho!”, diz Letícia enquanto os três contemplam o visual, sentados um ao lado do outro, literalmente à beira do abismo.
* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 011, setembro/2009, seção Brasileiros.