Palavra (en)cantada (2008). Foto: Divulgação.Por Murilo Wesolowicz
A princípio seria difícil acreditar que o documentário Palavra (en)cantada (2008), de Helena Solberg, desse certo. Se as características do filme fossem analisadas separadamente poderia se dizer que dali sairia mais uma tediosa sequência de depoimentos.
Os entrevistados já foram tão desgastados pela mídia que parece não haver mais nada de novo para se discutir. Chico Buarque, Adriana Calcanhoto, Lenine, Maria Bethânia, Tom Zé e Arnaldo Antunes figuram na lista dos 18 nomes. O formato e a estética do documentário são as mais protocolares possíveis: o entrevistado presta seu depoimento, a câmera enquadra do peito para cima e faz um lento movimento de travelling. Estantes com livros, violões e jardins ilustram o fundo. Mas o filme surpreende. A diretora é competente ao delimitar o tema a que se propôs: a relação entre música e poesia.
“Se não me perguntarem o que é o tempo eu sei, se me perguntarem, não sei mais”, disse Santo Agostinho. A música pode ser entendida, mas não pode ser traduzida. E quando os músicos são instigados a falar sobre a arte que eles produzem, é aí que Palavra (en)cantada se sobressai. Eles não conseguem falar de música e poesia sem fazer música e poesia. E essa necessidade natural de se expressar cantando e tocando é o que dita o ritmo do filme e o torna empolgante. Tom Zé, ao citar Dorival Caymmi, fala: “mas que diabo é isso, tava cantando devagarzinho e depois começa a cantar rápido” e já pega o violão, aquele ao fundo, para explicar e cantar o que está querendo dizer. Chico Buarque diz que não pode cantar determinada música sem acompanhamento e que prefere ler. Já na segunda estrofe está cantando: “palavra dócil/ palavra d’água pra qualquer moldura/ que se acomoda, em verso, em mágoa/ qualquer feição de se manter palavra/ palavra”. Antes disso havia cantado Choro Bandido.
A música e a poesia fundem-se e desfiguram-se para dar origem a uma coisa só: a canção. Prender-se ao duelo que tenta diminuir uma em prol da outra é pura perda de tempo. E isso Palavra (en)cantada não faz. “Só danço samba/ só danço samba/ vai, vai, vai, vai”, canta Paulo César Pinheiro, que explica que essas palavras no papel não fazem sentido algum, é preciso colocar melodia para serem o que são.
Seguindo essa linha de raciocínio é possível traçar um paralelo entre a música e o documentário. A mescla entre forma e conteúdo que se dá em um, acontece da mesma maneira no outro. As possibilidades infinitas de criação que existem na música, resultado de inúmeras variáveis como letra, melodia, entonação, timbre etc., são possíveis também no documentário, resultado de um sem-número de estéticas, temas e formas de contar a história. O roteiro de um documentário, ou mesmo a transcrição das falas depois de pronto, pouco valor tem como literatura, tal como a letra sem a melodia. São as imagens que sustentam as falas, mas não só elas, também os cortes, a trilha sonora e todo esse complexo jogo de criar e harmonizar os elementos que resultarão no filme.
E é assim que se compõe uma canção, criando e harmonizando os elementos. Palavra (en)cantada, mesmo com seu protocolar formato, conseguiu costurar e harmonizar muito bem as suas ótimas entrevistas.
* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 008, junho/ 2009, seção Brasileiros.