Jean Charles (2009). Foto: Divulgação.Por Murilo Wesolowicz
Existem maneiras diferentes de se contar a história de um filme. Alguns roteiros se utilizam de diversos mistérios e reviravoltas para, no fim, revelar tudo ao mesmo tempo, de uma forma imprevisível, para delírio de muitos espectadores. O sexto sentido (M. Night Shyamalan, 1999) é um exemplo clássico. Outros roteiros preferem abrir a cortina de maneira constante e gradativa. O público vai aos poucos absorvendo a trama, sem guardar grandes revelações para o final do filme, como em Entre os muros da escola (Laurent Cantet, 2008).
O curioso em Jean Charles é que antes de assistir o filme grande parte do público já conhecia a história e também sabia que ela acabaria no assassinato do protagonista. Longe de ser um evento raro, mas também não se pode dizer que são comuns os filmes que tem a história popularmente conhecida antes do filme ser visto. Recordo-me de A queda (Oliver Hirschbiegelm, 2004), que narra o desmoronamento da Alemanha nazista culminando no suicídio de Hitler. Quase todos conhecem essa história.
A estratégia então, tanto de Jean Charles como de A queda, é usar esse enredo popularmente conhecido para atrair a atenção do público para que povoem as salas de cinema e, durante o filme, revelar um ponto de vista diferente da história. Hitler em suas últimas horas de vida é o que mostra A queda. E a vida do imigrante brasileiro em Londres é o que o filme Jean Charles se propõe a contar.
De maneira despretensiosa o diretor expõe o dia a dia dos brasileiros que se aventuram em terras inglesas, onde não só o idioma é diferente, mas toda a cultura. Eles vão em busca de melhores salários, fugindo das baixas remunerações que são oferecidas no seu país natal.
Selton Mello interpretando Jean Charles de Menezes utiliza o estereótipo do brasileiro malandro, que dá um jeitinho para tudo. Isso ajuda a cativar o público que o vê, já na primeira cena, enrolando um funcionário do aeroporto que estava barrando a entrada da prima no país. E é o conjunto desses pequenos acontecimentos, da luta pela permanência e sobrevivência no país que sustentam, e sustentam bem, o filme.
Longe da ficção, o assassinato de Jean Charles pela polícia britânica é o ápice de toda essa história. Mas no filme é diferente. O fato de o público conhecer o final trágico do eletricista brasileiro faz o momento do assassinato ter menos peso dramático. E não adiantou o diretor Henrique Goldman fazer movimentos de câmera “peculiares” na hora do crime. A cena estava fadada a não surpreender. E depois que ela acontece inevitavelmente o primeiro pensamento que nos ocorre é: o filme está terminando.
O mérito de Jean Charles é contar com simplicidade as ilusões e desilusões do povo brasileiro que está longe de casa.
* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 009, julho/ 2009, seção Brasileiros.