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Bicho de 7 cabeças
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Bicho de 7 cabeças


Bicho de sete cabeças (2001). Foto: Divulgação.

Por Murilo Wesolowicz

“(...) no fundo, quem deve ser corrigido se apresenta como sendo a corrigir na medida em que se fracassam todas as técnicas, todos os procedimentos, todos os investimentos familiares e corriqueiros de educação pelos quais se pode ter tentado corrigi-lo. O que define o indivíduo a ser corrigido, portanto, é que ele é incorrigível.”
Michel Foucault, Os anormais

Neto é um adolescente rebelde, fuma maconha, anda de skate, picha muros e já está enjoado das relações familiares e da dependência financeira que tem dos pais. Mas, para complicar essa corriqueira situação, o pai de Neto, em virtude de sua precária educação, tem uma visão de mundo restrita e é excessivamente conservador. Após a descoberta de um cigarro de maconha no bolso do filho, sem nem ao menos conversar ou pedir explicações, interna Neto em uma clínica de recuperação de dependentes químicos.

O filme Bicho de sete cabeças (2001), dirigido pela paulistana Laís Bodanzky, é baseado no livro Canto dos malditos, escrito pelo curitibano Austregésilo Carrano Bueno. Carrano escreveu o livro relatando suas trágicas experiências que começaram aos 17 anos de idade, quando seu pai o internou pela primeira vez em uma clínica de recuperação em Curitiba.

Ao diretor da clínica interessava manter os pacientes internados para que o número mínimo de internos fosse mantido, e assim, ele continuasse recebendo os recursos provenientes do Estado. Desta forma, as mais impróprias medidas eram tomadas: doses altíssimas de calmantes, choques elétricos, agressões etc., para tornar um paciente saudável, como era o caso de Neto, em um completo abobalhado.

Não quero restringir o filme a uma denúncia, ele é uma obra artística de muito valor em nossa filmografia, as dezenas de prêmios que ele ganhou no Brasil e no exterior comprovam isso. Porém, ele apontou os holofotes para uma questão absurda que ainda ocorre no País: o internamento manicomial.

O manicômio nasceu durante a Renascença, sendo uma oportuna instituição para remover da sociedade não apenas os ditos doentes mentais, mas também qualquer figura que fosse inconveniente aos interesses políticos da época. Hoje, ele serve como uma instituição de comodidade, onde é possível abandonar as pessoas que possuem leves ou acentuados distúrbios mentais, mas não só, também qualquer um que não se encaixe no modelo social instituído.

Não muito recentemente, a sociedade brasileira vem se tornando interna de sua própria casa. O alto índice de violência apontado em quase todo o País cria uma histeria generalizada não só nos ricos e na classe média, mas também nas classes sociais menos favorecidas. Evento que é acentuado pelo sensacionalismo do jornalismo brasileiro. Esse eterno estado de pânico em que vivem as famílias, somado a um restrito, quase inexistente, senso crítico, torna-se um berçário para equívocos irreparáveis pelo qual passou, por exemplo, o personagem Neto.

No século XVII, quem fosse pego se masturbando era considerado uma figura monstruosa e podia ser internado no manicômio. No século XXI, quem fuma um baseado é considerado passível de internação, no mesmo modelo de manicômio, pela sociedade. Quatro séculos de história, e a sensação é de não termos saído do lugar.

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 012, novembro/2009, seção Brasileiros.


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