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O espião que sabia demais (2011). Foto: Divulgação.

Tomas Alfredson homenageia Alfred Hitchcock
Por Josiane Orvatich

Direto ao assunto: o mais emocionante do filme de Tomas Alfredson, O espião que sabia demais (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011), são as homenagens a Alfred Hitchcock, e o maior suspense é esperar se a próxima cena-homenagem virá.

O pássaro que entra pela lareira numa sala de aula (Os pássaros, 1963), a mulher que é vista, pela janela, apanhando do marido (Janela indiscreta, 1954), o isqueiro com a inscrição “To George from Ann” (Pacto sinistro, 1951), o avião assustador que se aproxima e ameaça um dos agentes (Intriga internacional, 1959) e o cadáver estendido entre folhas de outono (O terceiro tiro, 1956) são cenas-homenagens que, juntas, criam uma comoção única para quem aprecia a obra de Hitchcock.

As cenas, porém, intrigam pelo contexto dramático em que estão inseridas e pelo diálogo que estabelecem com o gênero do suspense, ou mais especificamente, com o suspense a la Hitchcock. Há pelo menos duas diferenças explícitas em relação ao estilo do diretor britânico: primeiro, a abordagem bastante discursiva dos aspectos de uma trama difícil de ser compreendida, com excesso de diálogos dos personagens sobre suas descobertas e investigações – Hitchcock defendia o “MacGuffin” como forma de diferenciar o que é importante para o espectador e para os personagens, simplificando ou mesmo nem apresentando para nós aquilo que tanto valor tinha no mundo da narrativa; segundo, o whodunit (Who has done it?) – que Hitchcock sempre procurou evitar, pois “suscita uma curiosidade destituída de emoção” e “em geral o interesse se concentra exclusivamente na parte final”, dirá a Truffaut, em seu clássico livro-entrevista –, é o que move o filme de Alfredson, em busca de descobrir quem é, afinal, o agente duplo.

As diferenças narrativas em meio a homenagens tão significativas representam, portanto, uma inserção na tradição do gênero por parte do diretor sueco, mas não a imitação de um estilo. Ou ainda, uma invenção tão nova do gênero que sequer se parece com ele. Já em Deixe ela entrar (2008) muitos espectadores que aguardavam um filme de terror com fórmula pronta se decepcionaram com o aspecto de drama romântico e intimista que encontraram. Parece que Tomas Alfredson está tocando – e provocando – na delicada expectativa do espectador, renovando formas narrativas e enfatizando o drama de personagens extremamente enigmáticos e que não compreendemos muito bem – a vampira Eli, o agente Smiley.

Ainda sobre o excesso de diálogos explicativos da trama, talvez seja outro modo de Alfredson dizer o mesmo que Hitchcock: não é isso que tem maior importância. Quanto a mim, quero ver outra vez o filme, não para entender melhor o quebra-cabeça da história, mas para contemplar o mistério de Smiley e ver se há mais referências a Hitchcock escondidas nela – certamente, o charme com que os personagens tomam whisky é uma delas.

Fevereiro, 2012.


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