Dificilmente um jovem dos tempos atuais se assombraria com qualquer livro da extensa bibliografia de Herman Hesse, mas na década de 1960 isso era bem comum. Apesar de ter publicado suas obras mais importantes durante os anos 20 e 30, o autor alemão vencedor do prêmio Nobel de Literatura só foi descoberto pela geração da contracultura e adotado como uma espécie de guru pelos hippies – que, antes de se esbaldarem na lama do Woodstock, mergulharam de cabeça em sua obra. Não é exagero afirmar que a trilogia formada por Demian, Sidarta e O lobo da estepe era a bíblia da juventude dos anos 60. Isso porque os romances filosóficos de Herman Hesse mesclavam o pensamento oriental do hinduísmo e do zen budismo às ideias sobre sonho e inconsciente do psicólogo Carl Jung. Hoje, os livros podem soar um tanto ingênuos e moralizantes, mas é curioso que sejam ainda menos datados do que o filme O lobo da estepe, adaptado da obra homônima de Hesse em 1974, quase cinquenta anos após sua publicação.
Único filme do norte-americano Fred Haines, O lobo da estepe é uma obra caótica e alegórica sobre Harry Haller, um misógino de meia idade incapaz de se adaptar à vida social. A causa de seu sofrimento é a ambivalência de sua personalidade, que oscila entre a selvageria do lobo e a civilidade do homem burguês. Para pôr fim a este embate existencial, ele decide suicidar-se na manhã de seu 50o aniversário. Mas até lá muita coisa irá acontecer, e a história – tanto no livro, quanto no filme – tomará rumos cada vez mais fantásticos.
Se no romance existe algo de incômodo, é o pedantismo de se transmitir uma mensagem exemplar. Mas basta recordar que a obra foi escrita no período do entre-guerras, em 1927, e voltamos a considerar Herman Hesse um tremendo visionário. O filme de Haines, entretanto, forja um vanguardismo estético que se revela falso, já que sua adaptação é extremamente conservadora. Todas as cenas de sexo são ocultadas, a tensão homossexual entre o protagonista e o músico Pablo, bastante explicita no romance, é simplesmente ignorada, e o assassinato de Hermine acontece fora de quadro, em uma cena tão bizarramente realizada que beira a estética trash.
Quanto ao aspecto cinematográfico, a profusão de linguagens adotadas por Haine pode ter impressionado na época de sua estreia, mas quem assistir ao DVD recém lançado no Brasil achará os efeitos especiais no mínimo risíveis. Em todo caso, é preciso admitir que o uso de imagens simbólicas remetendo ao universo onírico junguiano e os cenários surrealistas das cenas finais fazem jus ao livro de Hesse. O texto original sugere mesmo essa viagem psicodélica rumo à desagregação da personalidade, à aceitação da esquizofrenia (das múltiplas personas) como o princípio da fantasia e da arte. Tal qual no livro, essa viagem é uma trajetória em crescente: da fotografia escura e intimista das cenas iniciais, pontuada pela comedida narração em off das anotações de Harry Haller, à cansativa pirotecnia de cores saturadas, embaladas pelo som de um virtuoso teclado setentista e ruídos estridentes. Entre estes dois atos de climas tão díspares, uma breve animação narra de forma didática e irreverente o Tratado do lobo da estepe, livreto que o protagonista compra de um vendedor ambulante na rua, e que analisa de forma chocante sua própria identidade.
A jornada do nosso anti-herói é marcada por uma série de personagens e acontecimentos estranhos, como a descoberta do Teatro Mágico, onde apenas os “loucos e raros” podem entrar, e o convívio com duas misteriosas cortesãs, Maria e Hermine. Esta última reforça a questão central da obra (dualidade), já que Hermine, além de ser a lembrança de um amigo de infância de Harry Haller, é também seu duplo. Com aparência andrógina, ela é a versão feminina do lobo da estepe, assim como seu nome é o feminino de Herman – alter-ego do autor? Por fim, é ela que conduz o personagem rumo à libertação – ensinando-o a amar, a dançar, a rir –, mas é também quem lhe estende a lâmina de barbear sempre que ocorre a Harry a ideia do suicídio. Outros personagens secundários retomam a discussão da dualidade, contrastando a cultura erudita e intelectualizada do Harry burguês com a vida noturna e libertina do lobo: de um lado, Pablo, o hedonista músico de jazz; de outro, cânones como o escritor alemão Goethe e os compositores clássicos Mozart, Brahms e Wagner, com quem o protagonista se encontra em sonhos e tem longas conversas – por sinal, o tom profético e afetado de todos os personagens ao longo do filme torna a projeção tediosa em muitos momentos.
Dois parágrafos acima eu afirmei que o uso de certos efeitos visuais – técnica da solarização, imagens distorcidas, stop-motion e o excesso de cromaqui – era responsável por tornar o filme datado. Mas não é apenas na forma que O lobo da estepe é precocemente envelhecido. Na ânsia de realizar um filme lisérgico no auge do movimento flower-power e transportar para o cinema um livro extremamente popular na época, Fred Haines pecou ao criar uma obra que reflete o estado de coisas não de seu tempo, mas do tempo em que Herman Hesse escreveu seu livro. A menção aos bolcheviques, ao racionalismo e à supremacia das máquinas (leia-se rádio e automóvel), por exemplo, fazia sentido no período do entre-guerras, mas não mais na década de 1970, quando a Europa já superava o niilismo que imperou após os dois conflitos mundiais. Mesmo assim, no filme de Haines vemos o lobo em desenho animado abocanhando selvagemente a suástica nazista. Ainda que a bandeira do pacifismo estivesse hasteada à altura máxima nos anos 70, alguns temas levantados por Herman Hesse e mantidos na adaptação cinematográfica parecem despropositados.
É interessante pensar que O lobo da estepe quase foi dirigido por Michelangelo Antonioni, o primeiro diretor cotado para o projeto pelo produtor Melvin Fishman, mas o italiano – que depois filmaria livros de Cesare Pavese e Julio Cortázar – classificou a obra como “infilmável”. Fred Haines acabou escolhido por conta de seu roteiro adaptado de Ulisses, de James Joyce, pelo qual havia sido indicado ao Oscar. As filmagens, que levaram sete anos para acontecer, envolvem ainda episódios curiosos, como o fato do produtor transportar a equipe até a Basiléia, onde o livro foi escrito e o LSD foi descoberto – pura casualidade, dizem. Menos casual foi o convite ao pai do LSD, Timothy Leary, para encarnar o papel principal, que acabou ficando com o excelente Max Von Sydow, o ator preferido de Ingmar Bergman. Neste caso, talvez o longa-metragem tivesse resultado em algo ainda mais psicodélico e chapado do que o filme realizado por Fred Haines. Se é que isso é possível.
Janeiro, 2010.