Madame Satã (2002). Foto: Divulgação.Rupturas, continuidades: uma breve reflexão sobre os rumos de Karim AïnouzPor Tatiana Monassa
Karim Aïnouz emergiu no meio do cinema brasileiro como um cavaleiro solitário quando do lançamento de seu Madame Satã (2002); o vigor cinematográfico e a articulação entre estética e política deste eram absolutamente raros por aqui. Passados mais de cinco anos, muita coisa aconteceu. Assistimos ao seu segundo longa-metragem e, coincidentemente ou não, a uma proliferação de filmes brasileiros baseados na intimidade dos personagens e em sua interação mais imediata com o ambiente – algo que em 2002 apresentava-se como uma tônica um tanto original. O que esperar hoje, pois, deste cineasta, profundamente afinado tanto com o cinema internacional quanto com a cultura brasileira e em quem depositamos as nossas mais altas apostas dentro do contexto da “retomada”?
Madame Satã impressiona até hoje, em cada revisão, pelo equilíbrio entre pujança estética, intensidade do trabalho dos atores e enunciação política. O filme parte de uma aproximação desmedida a um personagem marginalizado pela sociedade do seu tempo, em que o desejo de conhecê-lo é equivalente à imersão em seu cotidiano. Pela proximidade física da câmera aos corpos e às ações, carecemos desde o início de contextualizações mais amplas, que situariam melhor na História o que se passa e estabeleceriam de saída um determinado enquadramento social para o personagem.
O foco oscilante e a instabilidade do quadro subjugam o filme aos movimentos e vontades de um corpo-personagem: a câmera dança no espaço e a pele é a superfície na qual se inscrevem as vivências. Batendo ou apanhando, gritando ou sussurrando, fazendo sexo ou cuidando do bebê da amiga, o Madame Satã de Aïnouz é João Francisco, um homem que vive como pode dentro da exclusão e cuja dimensão performática está diretamente ligada a um processo de auto-legitimação – como se o filme entregasse a instância de representação ao personagem. Por outro lado, no entanto, Madame Satã apresenta um cuidado plástico invejável e uma dinâmica narrativa muito bem-pensada para equilibrar-se entre o drama de cenas “triviais” e a aceleração em jump-cuts de cenas de tensão.
Como um atestado da consistência do seu projeto como cineasta, a uma personagem diferenciada, Aïnouz responde com uma aproximação diversa em O Céu de Suely (2006). O desviante agora é Hermila, jovem cearense cujo desejo de evasão – assim como as transgressões de Satã – é em grande parte pautado pela aspereza em que vive. Ir pra longe significa afirmar uma liberdade imprescindível e tornar-se verdadeiramente si mesmo. E, para nos apresentá-la, o filme busca afinar-se à sua sensibilidade: à miríade de sentimentos que passam pelo interior da personagem e à monotonia de um lugar que não parece preocupado com nada muito além do que sobreviver dia a dia, corresponde uma imagem sobretudo contemplativa, mesmo nos momentos em que se aproxima mais dos corpos e das ações.
O Céu de Suely é um filme de horizontes; não apenas da linha que separa um céu de intenso azul do deserto logo abaixo, como das metas que ocupam o espírito daqueles que atravessam aquela cidadezinha de passagem, situada num entroncamento de estrada. Disso resulta uma estética mais calculada, em que os desfoques são mais medidos e os enquadramentos mais seguros. Os corpos carregam menos intensidades de gestos do que “marcas” que caracterizam e historiam os personagens (roupas, penteados, hábitos); o trabalho dos atores encontra-se mais contido em si do que numa dinâmica direta com a câmera – esvaziando consideravelmente a potência da empatia personagem-espectador vista em Madame Satã.
Num tempo em que a delicadeza de encenação e a subtração de grandes conflitos e choques dramáticos parece ter se tornado o modus operandi privilegiado de um dito “cinema de arte”, resta-nos perguntar: apesar da aparente coerência de sua abordagem estética com o que deseja narrar em O Céu de Suely, até que ponto Karim Aïnouz soube resguardar a potência do seu olhar cinematográfico das influências do cinema em voga internacionalmente? A questão, na realidade, assim como este pequeno texto, não pressupõe respostas imediatas, visa apenas a incitar uma breve reflexão sobre os rumos de um dos mais promissores cineastas brasileiros.
* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 004, dezembro/2008.