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Hanami


Hanami (2008). Foto: Divulgação.

Por Regiane Ishii

“O butô é um cadáver que trata desesperadamente de manter-se em pé”.
Tatsumi Hijikata (1928-86)

Em meio à acelerada reconstrução do Japão pós-guerra, o corpo em crise ganhou manifestação na dança butô. O limite entre vida e morte, presente em cada corpo japonês envolvido na obrigação de renascer a partir das cinzas, veio à superficie na figura quase nua, pintada de branco e de cabelos desgrenhados de seu criador Hijikata.

Hanami – cerejeiras em flor (2008) mostra, cinco décadas depois, Tadashi Endo, um dos maiores divulgadores do butô no Ocidente, emocionando a dona-de-casa Trudi (Hannelore Elsner) com seu espetáculo em Berlim. Trudi, amante de butô e de outras artes japonesas, está na capital acompanhada de seu marido Rudi (Elmar Wepper) para visitar dois de seus filhos.

O incômodo em ter que ocupar o quarto dos netos, a falta de conexão com os próprios filhos e a dificuldade em circular na cidade de metrô leva o casal a retirar-se por alguns dias no litoral. Lá, Trudi falece inesperadamente, deixando sozinho seu marido, esse com uma doença fatal.

Frente à nova situação, Rudi parte em direção ao lugar ao qual sua esposa sempre desejou ir. Hospeda-se na casa de seu filho que vive em Tóquio e a partir daí empreende a missão de apresentar o país a Trudi. Como o próprio título indica, a diretora Doris Dörrie está mais interesada na inegável beleza das cerejeiras do que na problematização do butô, e é assim, de forma suave e em tons rosados, que transcorre o filme.

Ao fim, Rudi se dá conta de que o Monte Fuji nao é “apenas mais uma montanha”, como inicialmente afirmava. Fuji é a montanha retratada 100 vezes por Hokusai e, graças a suas gravuras, a conexão entre ele e sua esposa foi possível. Buscando clichês que constituem o imaginário coletivo a respeito do Japão, ele alcançou sua plenitude.

Frente à morte da mãe, os três filhos da família Angermeier se esforçam a voltar rapidamente à vida cotidiana. Pulando rituais e mergulhados nos seus afazeres, não conheceram a harmonia que o pai teve a oportunidade de conquistar. Apenas o Japão deu conta da esquisita elegância de um homem vestido com as roupas da mulher amadaj á falecida.

O que Hanami proporciona é a vazão das emoções originárias de lugares-comuns. Do cinema, da cultura japonesa, da velhice. Faz isso tendo como centro movedor uma personagem que morre logo no início. O que ela pensa, seu nível de profundidade e compreensão, desconhecemos. Como ela viveria o Japão, nunca saberemos. O que resta é a veracidade de suas lágrimas ao assistir os movimentos de Tadashi Endo, e isso basta para que persigamos seu maior sonho.

Fevereiro, 2010.


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