RepertórioJosiane OrvatichMurilo WesolowiczColaboradoresEntrevistasA revista
Abraços partidos
Akira Kurosawa
Alice
À meia noite...
À procura de Eric
Asas do desejo
A bela da tarde
Budapeste
Caché
Caos calmo
Carlos Sorín
Christophe Honoré
A chuva
Cidade de Deus
Cidades do amanhã
Cinema romeno
A cor da romã
O curioso caso...
Dogville
Os famosos e os...
Gran Torino
Hanami
O homem que...
Insolação
Karim Aïnouz
O lobo da estepe
Lucrecia Martel (1)
Lucrecia Martel (2)
O mágico de Oz
Nouvelle vague
A queda da casa...
O sacrifício
O show de Truman
Tativille (1)
Tativille (2)
A teta assustada
Viajo porque...
Zazie no metrô
O show de Truman


O show de Truman (1998). Foto: Divulgação.

Arquiteturas fílmicas 3 – O show de Truman
Por Fábio Allon

Nos primeiros textos desta série, publicados nas duas últimas edições de Juliette, vimos que Jacques Tati parte de um programa arquitetônico, “desfamiliarizado” de um contexto mais abrangente e trazido para o primeiro plano das discussões. Como sugerido em Meu Tio (1958) e Playtime (1967), o que se viu foi a consolidação de uma sociedade em que o privado impõe-se ao público como norma, em que os prédios, embora transparentes, fecham-se dentro de si mesmos. Apesar disso, a vida confusa e caótica da periferia representada em Meu Tio não foi totalmente suplantada pelo modernismo de Playtime. Ao contrário, ambos se desenvolveram a ponto de se misturarem e dessa dicotomia ter-se desdobrado em uma série de outros espaços mistos. A imagem limpa e mecânica do modernismo mesclou-se a novas formas de apropriação do espaço urbano, como a proposta por Peter Weir em O Show de Truman – O Show da Vida (1998).

O ambiente artificialmente recriado pelo filme é sublinhado por todo um trabalho visual, meticulosamente projetado para simular a “vila ideal”, no caso um subúrbio em forma de condomínio fechado, com casas de cores suaves, ruas limpas e amplos jardins, transmitindo uma sensação de ordem e amenidade - o verdadeiro sonho americano -, em que a comunicação eficiente da arquitetura e do planejamento urbano asseguram a legitimidade do que nos é apresentado. Vê-se claramente uma sátira da vida suburbana norte-americana e do poder exercido pela mídia. Embora pareçam artificialmente criadas, o curioso é que as locações utilizadas pelo filme são na verdade uma cidade real, de nome Seaside, projetada na Flórida em 1981 – com casas de madeira sem muros entre vizinhos e vegetação impecavelmente cuidada. Tem-se supostamente um tecido urbano suave, com curvas moderadas e ruas estreitas, em que o visual calmo é garantido pelos contidos tons pastéis das fachadas das casas.

Essa new town norte-americana foi a pioneira desse tipo de cidade, difundida principalmente pela corrente do New Urbanism (Novo Urbanismo), através da qual se estabeleceu como modelo. Seaside surge como uma reabilitação de um trecho da costa marítima da Flórida pela construção de uma cidade de escala vicinal, criando-se um ambiente de características “tradicionais” num espaço original de 80 acres (aproximadamente 325.000 m²). O casal de arquitetos de Miami Andres Duany e Elizabeth Plater-Zyberk, responsáveis pela implantação do empreendimento, adotou regras que controlavam desde os materiais empregados na construção, a orientação e proporção das edificações até os estilos empregados e seus elementos, tais como pórticos e tipos de janela - uma cidade regulada em todos os aspectos. Natural e artificial se confundem e uma arquitetura “cenográfica”, massificada, originária dos filmes de nostalgia dos anos 50, vem à tona, saindo do imaginário fílmico para tomar conta do espaço urbano concreto.

Seus elementos principais, como a organização espacial, funcional e os aspectos de interação social, vão sendo desvendados ao longo do filme. Os diversos planos panorâmicos e detalhes nos permitem desvendar esse território “privilegiado”, ecologicamente planejado com generosas áreas verdes: jardins, gramados, árvores e cinturão verde em forma de bosque perimetral. Todas as casas têm amplos jardins e cercas brancas que em teoria favoreceriam a interações entre a vizinhança. A tudo isso se soma ainda um tipo de arquitetura pitoresca, em que se busca reviver modelos antigos (estilos vitoriano, georgiano e colonial americano, principalmente) nas formas do presente. Aqui escancaradamente resgata-se em utopias passadas um modelo atual de vida. Através de uma tipologia característica, busca-se uma nova identidade. Numa tentativa nostálgica típica de fim de século, deposita-se esperança em soluções consagradas em tempos remotos, numa atemporalidade contextual preocupante.

“A tentação historicista [...] é a tentação de fazer derivar o sentido do texto, da obra arquitetônica ou do objeto artístico a partir do contexto histórico–cultural que o envolve e só depois disso abordar a obra propriamente dita [...] nela, a obra perde seu poder determinante e formativo daquele contexto” (Carlos Brandão, A formação do homem moderno vista através da arquitetura).

Seaside, após alcançar prestígio e sucesso comerciais, foi considerada o grande ícone e se tornou um dos pilares do que se convencionou chamar New Urbanism. Suas características principais nos levam ao conceito de enclaves fortificados, cidades-fortaleza ou ainda cidades muradas/blindadas (Gated Cities). Trata-se da implementação de grandes condomínios fechados semelhantes aos subúrbios tradicionais, mas com maior densidade e diversificação de usos, além de maior afastamento em relação aos outros condomínios, garantindo a exclusividade a seus moradores por intermédio de uma imagem artificialmente criada.

“O cinema, parece que com enorme habilidade, está representando um dos paradoxos mais criticados dessa nova corrente urbanística: o caráter enganador fornecido por uma percepção criada como evasão da realidade atual. Uma percepção intencionalmente estimulada através de recursos de projeto” (Lineu Castello, Meu tio era um Blade Runner: ascensão e queda da arquitetura moderna no cinema).

Este tipo de desenho urbano opõe-se ao subúrbio tradicional ao propor uma diminuição da escala e ao aproximar funções pela densificação da ocupação. As calçadas são menos largas, mas há mais praças, espaços livres e ruas específicas para o pedestre e o ciclista. As repartições públicas e os locais de serviço estão muito mais próximos e usualmente acessíveis a pé, havendo certo controle quanto à circulação dos automóveis. Embora com algumas características que à primeira vista e numa análise descontextualizada possam parecer interessantes, esses tipos de empreendimentos acabam por se revelar excessivamente restritos e excludentes, não só física - já que são espacialmente isolados de seus entornos por muros, grades e portões -, mas também social e ideologicamente - já que intentam uma aproximação entre vizinhos imediatos, mas viram as costas para o seu entorno além-muros. Há, conforme Clara Irazábal, “uma fé quase cega nas qualidades redentoras do desenho para resolver os problemas urbanos”.

A noção de propriedade privada torna-se saliente, já que o próprio sistema de autogestão e vigilância parte de corporações contratadas, sem que se exerça por decisão da maioria – tudo já faz parte do contrato, não sendo preciso “preocupar-se com nada”. A vídeo-vigilância que persegue Truman é a mesma dos circuitos internos de segurança da cidade real. Configuram-se, portanto, como verdadeiras “ilhas urbanas”, guetos separados e protegidos do resto do mundo por cercas, portões, barreiras e guardas, quando não por imensas áreas verdes e até rios, tornando-os mais remotos ainda. Essa própria noção de isolamento, segundo José Costa Mas, é ainda acentuada sutilmente pelo título do jornal de Seahaven que aparece de relance numa cena: The Island (A Ilha). Essa pequena insinuação via jornal nos atenta para outra faceta importantíssima desse tipo de empreendimento, sem a qual poderia estar fadado ao insucesso: a propaganda, ou mais especificamente, o marketing urbano. A imagem criada acerca do empreendimento é vendida como cartão postal antes mesmo de sua construção, já que se trata de um urbanismo padronizado, tendendo ao mimetismo.

Seguindo a mesma linha, em 1997 a Disney Development Corporation inaugurou Celebration, na Flórida, no emblemático dia quatro de julho. Com capacidade prevista de 20 mil habitantes, logo alcançou sucesso comercial. Trata-se de todo um complexo, de origem obviamente cinematográfica e valendo-se de métodos historicistas, que reproduz o ideal do sonho americano. Projetada para ser vivida como num filme, com final feliz, é claro, onde as amizades são estreitas, a paisagem é agradável, nostálgica, a calma e a ordem reinam e, acima de tudo, a sensação de segurança está garantida. A exemplo de Seaside, tudo é meticulosamente planejado para funcionar como um roteiro cinematográfico, em que cada habitante é um ator e tem seu papel a desempenhar. Muitas das normas que regem esses grandes condomínios são estabelecidas pelas próprias companhias incorporadoras, ditando não só os estilos arquitetônicos e as cores das edificações, mas até os perfis e estilos de vida de seus habitantes. O sonho de felicidade e segurança é, contraditoriamente, garantido pelos empreendedores ao tomarem para si próprios o que, na vida normal, seria dos habitantes: a liberdade de intervir em seu entorno e tomar suas próprias decisões. É, na verdade, um sonho massificado que vem como única alternativa para que cada um viva pelo menos uma pequena parte de seu sonho “exclusivo”.

O que se apresenta como defesa a esse tipo de empreendimento é que tal conformação promoveria mais interações entre vizinhos, pela diversificação de usos, já que o papel do automóvel fica sensivelmente reduzido. Outro ponto positivo seria o fato de que as áreas escolhidas para implantação seguiriam rigidamente as normas de proteção ambiental, protegendo reservas naturais e afins, sempre ameaçadas pelo tradicional modelo de subúrbios americanos. Se por um lado isso possa ser verdade, por outro esse novo modelo urbano tem descambado para um exagero de propostas semelhantes, nem sempre tão meticulosamente projetadas, voltando-se cada vez mais para si e acentuando em larga escala a exclusão social. De que adianta fortalecerem-se os laços entre vizinhos e cortá-los com o resto da cidade? A reclusão optada por seus moradores não é de forma alguma apenas física, mas reflete-se também numa omissão nos quesitos políticos e de cidadania.

“Uma casa nova à antiga” era o slogan da Disney Development Corporation para Celebration, desenhada e vendida com o auxílio de ilustrações nostálgicas de uma América de tempos idos. Vende-se o partilhamento de um sonho, mas pratica-se por outro lado a exclusão social. No fim das contas, o que se tem verificado é a conformação de verdadeiros guetos da classe média branca. Este ambiente social regulador vivido por seus habitantes é marcado pela intolerância e submissão a um estilo de vida que busca um “espírito de comunidade”, mas que como sugere David Harvey, “constitui uma utopia retrógrada e um obstáculo à mudança social progressiva”.

"O passado passou, e só o presente é real, mas a atualidade do espaço tem isto de singular: ela é formada de momentos que foram, estando agora cristalizados como objetos geográficos atuais; essas formas-objetos, tempo passado, são igualmente tempo presente enquanto formas que abrigam uma essência, dada pelo fracionamento da sociedade total. Por isso, o momento passado está morto como ‘tempo’, não porém como ‘espaço’ ” (Milton Santos, O presente como espaço).

Essa tentativa de fuga para o passado é um retorno ao tema de sempre: a insatisfação com uma realidade frustrante, o desejo nostálgico por tempos que já se foram. O Novo Urbanismo revela-se uma corrente que pratica a exclusão social e se desvia dos problemas atuais, desconsiderando radicalmente o presente e buscando no passado uma ilusão, derrapando em seu próprio tempo. Numa comparação fugaz, já se sugere na própria Suburbia de Edward Mãos de Tesoura (Tim Burton, 1990), representada por uma mescla de locações reais na Flórida e de maquetes construídas especificamente para o filme, o modelo de cidade e de vida repetitiva e falsificada aqui discutidos (seria coincidência uma de suas personagens ser revendedora de cosméticos da Avon?). Chama-se assim a atenção para os aspectos de recorte e maquiagem da realidade protagonizados por esse tipo de urbanismo “amistoso”. Seahaven e Suburbia mostram a faceta mais execrável do New Urbanism, as cidades blindadas, para onde apenas alguns poucos “privilegiados” podem viver, fugindo dos problemas da cidade real.

Como notou o crítico Luis Fernández-Galiano, “o próprio nome da personagem denuncia a mistura confusa entre realidade e ficção: o ‘homem de verdade’ – Truman ou ‘true man’ – tem o cínico sobrenome de Burbank, no Vale de São Fernando, onde estão os maiores estúdios de cinema e televisão de Los Angeles: The Burbank Studios, da Warner Bros. e Columbia Pictures, o Universal Studios e os Studios Disney” (Luis Galiano-Fernández, La década digital: uma crônica de los noventa).

Seaside, a exemplo dos novos empreendimentos de Celebration, Suisun City, The Crossings e dos Alphavilles disseminados Brasil afora, é o reflexo da busca por um ideal, inalcançável na aspereza cotidiana da vida real, que se transpõe à sua maneira das telas do cinema para o mundo concreto dos ricos, que se não podem ter uma existência segura naturalmente, podem pelo menos pagar para tê-la de forma artificial e simulada. A ilusão da realidade representada cenograficamente no cinema por Seahaven encontra, em Seaside, seu pólo oposto: uma “cenografia” alçada à categoria de realidade ilusória. Enquanto o New Urbanism caminha rumo a uma cidade como parque temático, simulando aspectos selecionados da realidade, Truman Burbank, paradoxalmente, tenta fugir para o real, já que, sozinho, se vê impossibilitado de mudar sua realidade.

A Seahaven de Peter Weir e a Suburbia de Tim Burton são ambas enclaves fortificados sob constante vigilância. Se na ficção de Truman não se pode sair, no real não se pode entrar. A liberdade murada e contida é a resposta arquitetônica do desejo e da frustração – é preciso isolar-se para conviver, seguir um roteiro para se encaixar. Tudo é contido e controlado, exatamente como nos empreendimentos reais de Seaside, Celebration - ou nos nossos Alphavilles. No confronto de realidades, certamente Beleza Americana (Sam Mendes, 1999), Bully (Larry Clark, 2001), Ken Park (Larry Clark e Edward Lachman, 2002), Aos Treze (Catherine Hardwicke, 2003), SubUrbia (Richard Linklater, 1996) e tantos outros filmes que retratam o subúrbio norte-americano são mais permeáveis e representam um pós-modernismo menos radical e mais realista. Em alguns outros longas-metragens, fatores de ordem cultural, econômica, política e social estão ainda intrinsecamente ligados à forma como as ideias e os espaços fílmicos são mostrados, mantendo um forte vínculo com um contexto histórico, como o que vemos em Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders – mas esta é outra história...

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 005, março/2009.


11000000110000001010000010100000110000001100000011001100111111111000100010001000100010001100110011000000111100001010000010101010
RepertórioJosiane OrvatichMurilo WesolowiczColaboradoresEntrevistasA revista