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Gran Torino (2008). Foto: Divulgação.

Por Tatiana Monassa

Há dois anos, Clint Eastwood lançava seu épico díptico A Conquista da Honra/Cartas de Iwo Jima para um mundo assolado pelas devastadoras campanhas militares além-mar de George W. Bush. Discretamente, os filmes dialogavam entre si, de um lado, denunciando a construção a ferro e fogo da imagem dos Estados Unidos como o país da liberdade e dos vencedores e, de outro, a humanidade do estrangeiro reduzido à escória e animalizado por uma visão culturalmente aleijada. Hoje, a resposta do diretor a esse país que elegeu Barack Obama para a presidência, apostando nos ventos da mudança e em perspectivas de um futuro menos sombrio, mas assiste à proliferação de protestos que acusam o presidente de comunista, fascista e ditador, entre outras categorizações descabidas e alimentadas pelo medo de abrir mão da soberania da raça branca e de uma cultura do consumo conservadora e elitista, é Gran Torino (2008).

Do carro símbolo de uma América “clássica”, pré-mundialização, pré-capital financeiro, pré-miscigenação cultural, à caracterização precisa tanto de uma elite de subúrbio do meio-oeste quanto de guetos marginalizados, o filme articula com clareza impressionante um conto moral sobre a relação ambígua da América com sua tradição de “liberdade para todos” e com sua própria história de imigração e colonização. Todo o percurso afetivo da mudança de perspectiva de Walt Kowalski, personagem de Clint Eastwood, constitui uma sutil metáfora para as transformações sociais profundas dos últimos sessenta anos. A ideia da pátria erguida pelo trabalho duro dos colonos e propulsada a potência pela dedicação de comerciantes, industriais e proletários de todo o tipo, confronta-se hoje com uma realidade disseminada de “novos colonos” sem trabalho e sem perspectiva de futuro, que frequentemente vagam desocupados alimentando a criminalidade.

Entre um polo e outro, uma barreira intransponível persiste, bem mais sólida do que a tênue linha que separa o jardim de Kowalski do dos seus vizinhos Hmong. Porque Kowalski, como todos os personagens emblemáticos de Clint Eastwood, é um homem em busca de uma justiça humana; para além das limitações impostas pela sociedade à liberdade dos indivíduos. Ao contrário do que pode de início parecer, a ele interessa mais a integridade que permite a alguém viver com honra e dignidade do que uma série de preceitos que determinam o lugar de direito e os privilégios de que podem desfrutar as pessoas. Neste sentido, poderíamos dizer que Kowalski é um personagem coringa, uma espécie de arco de passagem, cuja trajetória guarda sentido em si mesma. De rabugento antiquado e incorrigível a defensor de uma minoria contra as injustiças de uma ordem social impiedosa que se processa fora da esfera da oficialidade, Kowalski traça o percurso de um pensamento cujo foco deve mudar. Pouco importa se o sujeito nasceu nos EUA de ascendência europeia ou mora lá em busca de um futuro melhor, o que deve estar em jogo é a força de espírito e a disposição deste indivíduo de se aliar às boas causas e de construir uma existência digna.

Se esta ideia, por um lado, alimenta-se das motivações profundas da ideologia-base da América livre e do self-made man, resgatando, portanto, um ideal originário do que consistiria de fato “ser americano”, por outro, chama a atenção para o fato de que a realidade existe para além de nossas idealizações e que é absolutamente necessário assumirmos uma postura adequada (em níveis diversos) a ela. Ao longo do filme, cena a cena, Kowalski se adapta. Primeiro, à morte da mulher com a qual ele tem que aprender a conviver. Em seguida, à nova proximidade com os filhos – já sem a mediação da esposa, com a qual ele não sabe lidar. E, depois, os vizinhos e a comunidade do seu bairro, que se tornaram impossíveis de ignorar a partir do momento em que ele passou a ser um homem sozinho em seu ambiente. Seu processo de adaptação responde à sua necessidade de adequação a uma realidade imediata, sem perder de vista seus parâmetros morais.

E a beleza do filme reside no fato de que à reconfiguração da postura do personagem corresponde seu desenvolvimento afetivo, que até ali encontrava-se encoberto por uma série de práticas que ele repetia por hábito e não por convicção. Como descobrimos no momento em que Kowalski concorda finalmente em se confessar, sua grande ferida era o fato de nunca ter conseguido se relacionar bem com seus filhos (talvez exatamente por seu elevado nível de exigência e princípios). E são as forças das circunstâncias que fazem com que ele encontre em Thao e Sue a possibilidade de uma relação parental que ele não conseguiu desenvolver dentro de casa durante sua vida; mas é a sua própria disposição de se abrir para o mundo fora da sua casa e encarar sua vida em retrospecto aos sinais de uma morte iminente, que o torna um sujeito de ação, que toma o destino nas mãos e assume a responsabilidade por si e pelos outros em nome de um bem maior. Podemos dizer, portanto, que Kowalski é um autêntico herói do nosso tempo.

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 007, maio/2009.


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