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Ma mère (2004). Foto: Divulgação.

Christophe Honoré e Louis Garrel: elogio e personificação do amor
Por Mariana Sanchez


Ainda que seja possível apreciar uma obra cinematográfica a partir de argumentos meramente racionais, considerando elementos do discurso e isolando as partes do todo – “a fotografia é primorosa”, “a direção de arte valorizou o tom naturalista”, “o roteiro é dinâmico” etc. –, a fruição de um espectador de cinema baseia-se em um critério bastante amplo: a subjetividade. Tenho observado que, quando uma obra nos agrada e somos incapazes de responder o porquê, o autor logrou estabelecer uma comunicação bem-sucedida não apenas com seu público, mas, em primeira instância, com os atores-chave de seu filme.

Cinema, portanto, também é química. De modo que, ao longo de sua história, algumas colaborações entre diretores e atores tornaram-se tão emblemáticas que fica impossível dissociar criador de intérprete. Basta lembrar a dupla John Ford e John Wayne, com 22 trabalhos realizados em parceria, e outros pares famosos como Federico Fellini e Marcelo Mastroianni, Hitchcock e James Stewart, Bergman e Max Von Sydon, Scorsese e De Niro. A lista é longa e inclui colaborações mais recentes, como os argentinos Daniel Burman e Daniel Hendler, que já trabalharam juntos em quatro longas, e os franceses Christophe Honoré e Louis Garrel.

A parceria começou em 2004, com o filme Ma mère, adaptado da obra de George Bataille e ainda indisponível no Brasil. De lá para cá, Honoré convidou o jovem ator – filho do veterano diretor francês Philippe Garrel – para outros três projetos: Em Paris (2006), Canções de amor (2007) e A bela Junie (2008), todos lançados no Brasil recentemente. O mais curioso não é a reincidência da parceria em si, mas o lugar que é dado a Louis Garrel dentro dos filmes de Honoré. Diferente da relação entre o diretor François Truffaut e o ator Jean-Pierre Léaud – quando Léaud viveu o personagem Antoine Doinel, alterego de Truffaut – Garrel não é o avatar de seu diretor, mas a personificação daquilo que lhe é mais caro: a busca do amor romântico – e anárquico, libertário – como sentido primordial da existência humana.

Garrel não é apenas um dos protagonistas dos filmes citados, mas tudo neles parece convergir para seus personagens em um movimento de atração fulminante: em Canções de amor, Garrel é Ismaël e vive um triângulo amoroso com Julie e Alice. Mesmo depois que o trio se dissolve por motivos trágicos, Ismaël continua no centro da trama, seduzindo Erwann e atraindo sua ex-cunhada Jeanne. No filme anterior, Em Paris, o ator-fetiche de Honoré chama-se Jonathan – e, como ele mesmo deixa claro, dirigindo-se à câmera em uma divertida apóstrofe, não é o herói, mas o narrador da história. Entretanto, por mais que o personagem central seja Paul, seu irmão mais velho, é Jonathan que perseguimos pelas ruas da capital francesa ao longo dos 93 minutos do filme, em cenários e situações diferentes, com mulheres diferentes. Na cena de abertura, quando Jonathan vai até a sacada do apartamento e conversa com o espectador, ele faz questão de justificar sua condição de narrador: “Isso explica a onipresença que é uma característica minha. Eu estou em todos os lugares”, diz. De fato, Garrel ocupa todos os lugares – especialmente os mais privilegiados – da obra de Christophe Honoré. Mesmo que a figura-símbolo do sublime A bela Junie não seja Garrel – e sim a atriz Léa Seydoux, que interpreta Junie –, o ator favorito de Honoré mantém-se uma espécie de ponto de atração, na pele do professor de italiano Nemours, um sedutor incorrigível que sempre consegue todas as mulheres que deseja, inclusive – ou quase – a bela Junie.

Louis Garrel não é o único ator recorrente nas três obras comentadas acima. Honoré costuma trabalhar com um mesmo núcleo de atores, o que é perfeitamente justificável em uma cinematografia tão pessoal, com traços autorais marcantes. Assim, Clotilde Hesme foi Alice em Canções de amor e a bibliotecária da escola de A bela Junie; Grégorie Leprince-Ringuet encarnou o libertino Erwann e depois o tímido e deprimido Otto, namorado de Junie; Chiara Mastroianni foi irmã de Julie em Canções de amor e ainda fez uma ponta no filme de 2008; Alice Butaud, tal qual Garrel, aparece nos três longas.

Entretanto, é sempre Louis quem personifica o ser humano desesperadamente em busca do amor sublime nos longas de Honoré. Um Louis despenteado, que adora ler e fumar na cama, com pulôveres de gola alta e olhar expressivo, espécie de Jean-Paul Belmondo do século XXI. Louis é um autêntico errante originário de Godard, Truffaut, Jacques Demy e Alain Resnais. Ou, ao menos, é como Honoré o transforma, já que o diretor é notadamente influenciado pela estética nouvelle vagueana e a ela costuma prestar homenagens. A mais evidente é Canções de amor, cujo roteiro foi escrito a partir das músicas de Alex Beaupin que permeiam todo o filme, cantadas por seus personagens em tom de diálogo. A obra é uma extraordinária e original evocação a Os guarda-chuvas do amor (1964), dirigido por Jacques Demy e com Catherine Deneuve no elenco, aos vinte anos (por sinal, não deixa de ser curioso que, mais de 40 anos depois, sua filha Chiara Mastroianni atuaria em um filme que homenageia essa obra de Demy). O desejo de utilizar canções no lugar de diálogos também já havia sido manifestado por Honoré em uma cena de Em Paris, quando Paul e Anna “conversam” ao telefone por meio de versos de uma música romântica, em um dos momentos mais tocantes do filme.

A abundância de jump cuts, locações externas que permitem passear por Paris e um estranho registro sonoro herdado de Robert Bresson – que aconselhava jamais usar o som em detrimento da imagem e vice-versa – são alguns dos elementos da Nouvelle Vague que permanecem em Christophe Honoré sem nunca aparentarem desgastados demais. Há ainda uma proliferação de referências à contracultura, aos surrealistas (Erwann declamando um poema de Louis Aragon), à literatura (Jonathan lendo “Fanny e Zooey”, de J. D. Salinger), e sobretudo ao cinema [os pôsteres de Last days (2005), do Gus Van Sant, e Marcas da violência (2005), de David Cronenberg, sem nunca cair no pedantismo ou na pseudo-intelectualização.

O cinema de Honoré transpira uma melancólica nostalgia do mundo, da arte, do amor romântico. Em contrapartida, transborda paixão e vitalidade, como se o mais importante, no fim das contas, fosse aproveitar belamente os momentos mais fugidios da vida. Esse paradoxo fica evidente na caracterização dos irmãos Paul e Jonathan: o primeiro, depressivo, há dias sem sair do quarto, a ponto de cometer suicídio; o segundo é visto ora correndo pelas ruas e bulevares de Paris, ora acomodado em camas alheias, de parceiras variadas. E é este rosto quase belo e este corpo de gestos ligeiros e desenvoltos que Christophe Honoré escolheu para personificar o sentimento mais sincero de seus filmes.

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 007, maio/2009.



 


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