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Carlos Sorín


Histórias mínimas (2002). Foto: Divulgação.

Janelas para o lirismo minimalista de Carlos Sorín
Por Mariana Sanchez

A associação entre conto literário e curta-metragem como contraponto ao romance e o longa-metragem já foi citada à exaustão. De fato, é possível resgatar elementos narrativos comuns entre ambas as linguagens, como o conceito do plot-point originário do romance tradicional, ou a recorrência dos desfechos impactantes nos relatos curtos. Mas, aí, somos pegos de surpresa diante de uma cinematografia como a do argentino Carlos Sorín, capaz de orquestrar grandes histórias a partir de um mínimo de elementos dramáticos, construindo longas-metragens com alma de contos literários à la Anton Chekhov e Raymond Carver.

Não à toa, um de seus filmes mais conhecidos e premiados internacionalmente leva o título de Histórias mínimas (2002), espécie de mosaico narrativo em que a trajetória de três protagonistas se entrecruza: uma dona de casa convidada para um programa de auditório na TV, um senhor de idade à procura de seu cachorro perdido e um representante comercial empenhado em conquistar sua cliente viúva com um bolo de aniversário. Dois anos após Histórias mínimas, o argentino apresentou o longa O cachorro (2004), focado na figura de Juan Villegas, um frentista demitido depois que o posto onde trabalha é privatizado. Para sobreviver, vende facas artesanais e faz bicos aqui e ali – quando recebe um cachorro como forma de pagamento. O chamativo animal lhe rende alguns trabalhos temporários, até conhecer Walter, um treinador de cães que levará Bombón a competir em exposições caninas e mudar a sorte de Villegas.

Avesso aos temas extraordinários, Sorín atua como um cronista da prosa comum e mais banal do dia-a-dia, interessado em trazer à tona a simplicidade e o aspecto demasiado humano de seus personagens. Assim também é seu mais novo filme, A janela (2008), exibido comercialmente no Brasil este ano.

O longa, vencedor do prêmio Fipresci (Federação Internacional dos Críticos) no Festival de Valladolid (Espanha), relata quase em tempo real um dia na vida de um escritor octogenário à espera da visita de seu filho, um pianista famoso que vive no exterior e com quem não fala há anos. Ao contrário das obras anteriores de Sorín, em que seus protagonistas estão sempre se deslocando de um povoado a outro pelas estradas argentinas, A janela rompe radicalmente com o gênero road movie ao centrar-se em um personagem em repouso: um homem de idade avançada e saúde debilitada, impedido de ir além dos limites de sua cama. Sob a vigilância de duas empregadas, Antonio tem como companhia lembranças distantes, sonhos enigmáticos em que um rosto feminino vagamente conhecido vem lhe visitar e a metafórica presença da janela de seu quarto, com vista para a fazenda onde vive, no norte da Patagônia – possibilidade única de escapar da doença, da velhice e da solidão.

A janela pode ser considerado um filme sobre o tempo. Situado naquele que seria o último dia de vida de Antonio, o filme é embalado pela marcação constante do relógio e de notas musicais minimalistas, executadas pelo afinador de piano que o escritor contratou para que o instrumento fosse digno de receber as mãos do filho pianista. De acordo com Sorín, essa relação afetiva faz uma pequena alusão ao filme A história real (1999), de David Lynch: “ir visitar o irmão pilotando um cortador de gramas não é muito diferente do que mandar afinar o piano para agradar o filho”, compara o argentino, que veio ao Brasil em maio apresentar o seu longa durante a Semana Ficção Viva do Cinema Argentino, em Curitiba. Sorín ainda reconhece ecos de outras obras cinematográficas em A janela, como As horas (2002), de Stephen Daldry, e Morangos silvestres (1957), de Ingmar Bergman.

A literatura também é fonte de inspiração do realizador neste longa, especialmente o clássico A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. Se no livro a tal invenção é capaz de fixar instantes da vida e reproduzi-los para sempre, no filme de Sorín é a janela que produz este efeito, revelando os fragmentos de sua existência mesmo quando ela se confronta com a morte. Entretanto, o diretor admite que seu longa mais recente teve dois pontos de partida: o filme Mãe e filho (1997), do russo Aleksandr Sokurov, sobre o último dia na vida de uma mãe e a relação de afeto e proximidade com seu filho; e o capítulo final do livro A vida dramática de Chekhov, de Irene Nemirovsky. Já em entrevista recente para o repórter Bolívar Torres, do Jornal do Brasil, Carlos Sorín comenta que escreveu as 32 páginas do roteiro de A janela fortemente inspirado em Anton Chekhov e Raymond Carver – autor levado às telas por Robert Altman em Short Cuts, cenas da vida (1993).Sempre me senti muito mais próximo do conto do que do romance e da música de câmara do que da sinfonia. Aliás, devo admitir que são muito poucos os romances que consigo terminar de ler. Tenho dificuldade de pensar em filmes com estrutura de romances, porque teria que resolver triangulações de conflitos na história, além de elipses”, revelou ao jornalista.

O traço lírico-minimalista do diretor é resultado da articulação de poucos, porém expressivos, elementos dramáticos, que mais ocultam do que revelam informações sobre a trama e seus personagens. Ainda que o filme traga à baila as reminiscências e os sentimentos de culpa e perda de um velho escritor à beira da morte, Sorín não apela para soluções fáceis como explicações verbais ou o uso de flashbacks. Ao invés disso, alimenta a trama com a descoberta de objetos esquecidos, como uma garrafa de champagne coberta de poeira, guardada durante décadas para uma ocasião especial – e que Antonio abre para brindar a chegada do filho –, um quadro abandonado no sótão da casa – que o espectador nunca chega a ver, mas pode imaginar o retrato da esposa falecida de Antonio – e, em uma das cenas mais adoráveis do longa, o resgate de soldadinhos de chumbo encontrados pelo afinador de piano dentro do instrumento, na certa pertencentes à infância do filho.

Uma característica interessante dos filmes de Carlos Sorín é sua preferência por não-atores. A própria escritura de seus roteiros recebe essa interferência, já que o autor apenas esboça a história central e um ligeiro perfil do personagem, para finalizá-lo somente após encontrar alguém que possa efetivamente viver aquele papel. Portanto, Antonio, o escritor de A janela, é Antonio “Taco” Larreta, importante escritor e roteirista uruguaio, hoje com 86 anos. Da mesma forma, o afinador de piano afina pianos profissionalmente na vida real, assim como o desempregado Juan Villegas, de O cachorro, se chama Juan Villegas, assim como Walter Donado, o treinador de cães, assina seus cheques tal como seu nome aparece nos créditos do filme. Para Sorín, os não-atores possuem “sentimento não-atuado”, ingrediente fundamental para obter o tom realista e verossímil buscado em seus filmes. “A fragilidade do protagonista Antonio não poderia ser uma fragilidade encenada”, argumenta.

Outro aspecto recorrente em sua cinematografia é a luminosidade da paisagem patagônica, o que faz de Sorín – assim como de Lucrecia Martel, com sua geografia enraizada na região de Salta – um diretor distante do eixo portenho e do próprio cinema argentino atual. Talvez por isso, a cada filme de Carlos Sorín, parece conseguir a façanha arriscada de realizar um cinema periférico dentro da própria periferia que é o cinema argentino diante da onipresença dos blockbusters.

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 009, julho/2009.

















 


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