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A bela da atrde (1967). Foto: Divulgação.

Belle toujours e Belle de jour: as belas eternamente perversas
Por Patrícia da Silva Cardoso

Belle toujours, filme de 2006 de Manoel de Oliveira, abre-se com a informação de que se trata de uma homenagem a Luís Buñuel e Jean-Claude Carrière, respectivamente diretor e co-roteirista – com o próprio Buñuel – de Belle de jour, lançado em 1967. Mas antes de falarmos sobre essa homenagem, quase quarenta anos depois de lançada a obra do cineasta espanhol – evocada já no título da película do realizador português – é importante estabelecer os pontos que vão interessar a este artigo.

Belle de jour desenvolve-se a partir do entrelaçamento entre a luta de classes e a sexualidade, dois temas muito caros a Buñuel. Nele acompanhamos a trajetória de Séverine, uma bela jovem da alta sociedade parisiense, a princípio relutante, mas logo empenhada em concretizar suas fantasias masoquistas. Assim é que a mulher do igualmente belo e jovem médico Pierre passa a transitar entre seu ambiente sofisticado e um discreto prostíbulo, onde trabalha durante as tardes, fazendo por prazer o que suas companheiras fazem por profissão. Justamente o convívio de Séverine com suas duas colegas e a patroa, Madame Anaïs, servirá de ponto de encontro dos dois temas.

Se à primeira vista o que chama a atenção é essa entrega da protagonista à realização de seus sonhos, da qual depende a completude de uma sexualidade que se exercita a partir da submissão, à medida que o filme avança vai-se constituindo um ambiente em que, menos que essa característica em si da vida íntima de Séverine, o que interessa é o papel social que ela e outros integrantes de sua classe exercem, até mesmo quando se trata da exploração da intimidade. A experiência da “Bela da tarde” é, então, o buraco da fechadura através do qual Buñuel nos leva a observar o comportamento de toda uma classe. Se para ela o prazer sexual é definido pela submissão, logo percebemos que é só nesse campo que ela interessa; fora dele, o alvo é sempre a posição de comando.

Assim, no plano da narrativa a perversão não importa em si, mas como metáfora da condição de classe. Como perfeito exemplar de sua classe, sem muita demora a bela se transforma na preferida dos clientes de Madame Anaïs, dominando a cena e roubando a clientela de suas colegas. Não é à toa, então, que Séverine e o Doutor – um dos frequentadores da casa, famoso ginecologista – partilhem o mesmo gosto masoquista. Não é preciso dizer que não haja entendimento possível entre os dois, que estão no prostíbulo em busca da mesma experiência. Olhando mais atentamente, a verdadeira perversão não está no gosto de uma mulher por ser coberta de estrume, ou de um médico importante a colocar-se no papel de um serviçal, mas no fato de que a realização dessas fantasias depende de que um e outro continuem no comando – nesse sentido, são exemplares as cenas do doutor com Mathilde – que só pode submetê-lo quando ele assim determinar – e a de Séverine com Marcel, o jovem marginal com quem se envolve. Para completar-se o cenário, àquela dupla de perversos junta-se Husson, personagem central na trama por ser ele que indica à jovem o endereço de Anaïs. Seu papel, como ele assumirá em Belle toujours, é o de espectador, ou provocador.

A partir da relação entre Séverine e Marcel evidencia-se a associação entre perversão sexual e classe social. Marcel é o protótipo do cafajeste, a um só tempo sedutor e violento, que entretanto desconhece o perigoso jogo de Séverine, baseado na dissimulação da inocência. Ao mesmo tempo em que sua violência não tem nada de encenada, não é parte de um jogo, suas atitudes são de uma clareza que lhe dá a dignidade que falta à mulher da alta sociedade e faz dele um inocente quando comparado a ela. É essa inocência que o leva a concluir que o único impedimento para sua união com Séverine seja Pierre… Com estes elementos dispostos ao longo da narrativa cria-se uma clara oposição entre classes: de um lado a perversão, definida pela dissimulação de toda espécie, de outro a inocência, garantida pela franqueza de convicções e de propósitos.

Este mundo tão bem dividido por Buñuel servirá de mote a Manoel de Oliveira em sua homenagem que, como veremos, não se restringirá a ser uma glosa ao filme de 67, mas um exercício em torno da imagem de sociedade – e de luta de classes – que ali se apresenta. Em 2006 reencontramos Husson, que, por sua vez, numa ida ao teatro revê ao longe Séverine. Esta, repetindo a postura de senhora digna de 40 anos antes, recusa-se a falar com ele, até ser atraída pela promessa de que lhe será revelado o conteúdo de sua conversa com Pierre, no final de Belle de jour.

Mas nossa atenção de espectadores – por mais que tenhamos na memória aquela visita de Husson a um Pierre completamente paralisado e mudo, antes da qual o primeiro declarava sua intenção de contar ao marido sobre os jogos vespertinos da mulher – diferentemente da de Séverine, divide-se entre uma série de elementos. O primeiro deles diz respeito à própria homenagem, que, como disse, indica-se no título e explicita-se na abertura do filme. Ensinados, como Séverine o foi por Mme. Anaïs, pelo Buñuel de 67, nada nos deve escapar nesta fresta-película de Oliveira. Assim sendo, começando justamente pelo título, é possível especular que se o termo belle era o nome fantasia da esposa perversa, que exercitava essa sua natureza pelas tardes afora, a mudança que substitui jour por toujours implica numa ampliação: uma vez perversa, para sempre perversa. Antes mesmo de nos ser dado ouvir de uma contrita Séverine sua disposição de ir para um convento – o que é informação mais do que suficiente, considerando-se, principalmente, o contexto em que ela o declara, em que o que está em jogo é a sedução de Husson para que ele cumpra o prometido – a certeza de que no título se encontra a verdade sobre a personagem desponta quando a vemos sair de um café para em seguida descobrirmos que o propósito de sua passagem por ali era deixar um bilhete para uma amiga, Mathilde – apenas uma homônima da companheira na maison de Madame Anaïs?

No jantar em que os dois conhecidos se encontram a certeza se completa, pois vemos Séverine em toda sua antiga forma. “Agora”, diz ela, “sou uma outra pessoa. Quero que entenda que não sou mais aquela mulher que o senhor conheceu naquela altura. Aquela que tinha necessidade de apaixonar-se por um homem para poder fazer amor com outro”. A veemente defesa de sua mudança choca-se com a curiosidade incontrolável que ela demonstra em saber a verdade sobre aquela conversa do passado. Choca-se por revelar-se mais um exercício da velha perversão. Afinal, para esta mulher que tinha como condição para o prazer não apenas a submissão, mas também o segredo que envolvia sua dupla vida, a confirmação de que tal segredo pudesse ter sido revelado, se, por um lado, representava uma quebra do encanto em que ela mergulhara desde que começara a frequentar o prostíbulo, por outro abria todo um novo leque de possibilidades perversas, num cenário composto por um marido ciente e literalmente submisso a ela. Se não, por que seria tão importante, para alguém a quem mais nada importa, saber qual o motivo da lágrima que ela supôs ver escorrendo pelo rosto do marido depois da partida de Husson? Por esta rápida referência, vê-se a boa forma da senhora, que sem dúvida é acompanhada pela do cavalheiro. Como bom espectador-provocador, ele cumpre seu papel à risca e mantém a indefinição.

Até este ponto temos um lado da antiga história revisitado. Pelo que até aqui nos foi dado espiar, em 2006 as classes dominantes mantêm o perfil descrito em 67, fazendo valer aquele toujours do título. Resta agora espiar o outro lado. Logo se percebe a ausência de um Marcel – talvez porque depois de tanto tempo já não haja mais lugar para tipos como aquele, meio selvagem, meio romântico. Permanecem as prostitutas, uma velha e outra moça, a reforçar o lugar-comum da mais velha profissão do mundo e depois explicitar que, em comparação com gente como Séverine, elas são como anjos, “fazem negócio com o corpo, mas não enganam ninguém”. Quem diz isso é Benedetto, o barman do Royal Vendôme para quem Husson conta a história.

Este Benedetto é a contribuição de Oliveira para a trama de Buñuel. Ele encarna a figura do homem simples, para quem as bizarries de alguém como a “bela da tarde” soam ainda mais bizarras, mas, ao contrário de Marcel, ele compreende tudo muito bem. Ainda que diga a Husson que duvida de que o tenha feito, o fato é que este barman, num verdadeiro exercício psicanalítico, complementa as observações de Husson, chegando ao ponto de considerar o possível prazer causado num marido como o de Séverine por uma mulher com sua conduta. A reação do interlocutor é bastante significativa: “você é mais esperto do que aparenta.” Esta perspicácia do barman incide sobre aquela completa oposição entre classes construída em Belle de jour, tensionando a imagem de mundo sobre a qual ela se sustentava e ao mesmo tempo indicando uma conscientização de classe quanto aos perigos escondidos no charme discreto da burguesia. Em Belle toujours, a inocência e os bons propósitos estão restritos à estátua de Joana d’Arc em frente ao hotel de Séverine. É esta a bela homenagem de Manuel de Oliveira a Luís Buñuel.

Fevereiro, 2010.


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