À procura de Eric (2009). Foto: Divulgação.Por Isaac Pipano
“It all began with a beautiful pass”.Eric Cantona
Eric Cantona, francês, é rememorado ainda hoje pelo temperamento impetuoso, por aforismos que ilustravam os cadernos esportivos (e na maioria das vezes não diziam nada), e por ter avançado num torcedor do Crystal Palace numa partida – o que lhe rendeu oito meses de suspensão do campeonato inglês, onde ostentou a camisa 7 do Manchester United. Conclamado pela torcida como “King Eric”, Cantona foi eleito em 2001 o jogador do século pela casa, conquistou quatro títulos em cinco anos e consagrou-se como uma lenda do futebol inglês.
À Procura de Eric (2009), do diretor Ken Loach, no entanto, fala de outro Eric: um carteiro de meia-idade frustrado e depressivo, que leva no currículo dois casamentos fracassados e filhos problemáticos com quem tem uma relação baseada em gritos e palavrões. Eric Bishop (Steve Evets) e seus amigos carteiros fazem parte da classe trabalhadora sobre a qual está debruçada a obra de Ken Loach desde os anos 60, em que a política é essência e permeia as camadas mais profundas da narrativa, condicionando também a estética. Loach pretere beldades a não-atores, mantém-se fiel aos dialetos e coloquialismos realçando assim o cuidado com a representação, permitindo que seus personagens ocupem os espaços físico e social da própria vida.
Como refúgio para a rotina enfadonha, Eric rouba maconha de seu filho mais velho e, escondido, fuma baseados enquanto admira o pôster do seu xará, King Eric, até que, numa noite fortuita, este surge em seu quarto e passa a agir como uma espécie de consultor metafísico. Nesse encontro do fã e do ídolo – do humano e do mito – constrói-se o filme, que fala menos de futebol enquanto esporte, mas daquilo que o permeia. Quer dizer, o transe e a paixão em detrimento da burocracia dos placares, pontuações e toda a máquina que o situa na mesma lógica de mercado criticada por Loach.
Confabulando ora em francês, ora em inglês, Cantona será responsável para que Bishop altere o status quo de sua vida e reconquiste o amor da primeira esposa, por quem se descobre novamente encantado; a autoridade na casa, onde é menos do que um dos inúmeros amigos que assistem à tevê com os filhos durante horas; e, por fim, uma paixão pela vida que se tornou errática, mas cresce com vigor quando o ídolo é evocado. Mas Cantona, o jogador, é paródia de si mesmo. Concatenando ideias aleatórias, lançando máximas e provérbios que para Bishop fazem pouco sentido, ou nenhum, Cantona desce ao abismo onde vive a classe operária para elevá-los à sua condição de mito. É uma desconstrução que se edifica no cigarro de maconha compartilhado, no copo de vinho e na arte de filosofar sobre a vida, na tentativa de inserir um pouco de graça naquilo que parece tão vazio.
Nas mãos de Loach e do roteirista Paul Laverty, o encontro dos Eric torna-se via-dupla: ao passo que Bishop infla-se de uma coragem que só à sombra de Cantona poderia ser originada, o próprio ídolo torna-se humano, incidindo na coletividade que é tão cara a Loach, e numa crença honesta em sentimentos tão delatados quanto a solidariedade e a amizade. Por isso, dizer que, se por um lado À Procura de Eric parece deslocado no contexto da obra do diretor, pela sua leveza e esperança, o filme não deixa de insistir nos mesmos valores que são suscitados desde Kes (1970). Porém, após filmes duros, como o anterior Ventos da Liberdade (2006), a modesta epopeia de Eric possui uma beleza extraordinária que emana de uma simplicidade não utópica. A vida está aí para ser jogada, com suas intempéries, adversidades e subtrações diárias. O que Loach, através de Cantona, pretende, no entanto, é tentar devolver sabor a homens para quem viver tornou-se amarga resignação.
Encostados num parapeito de um edifício, Bishop instiga Cantona a dizer qual foi o momento mais especial em sua carreira. Certo de que King Eric lhe dirá que foi um gol, Bishop passa a narrar alguns dos melhores momentos do jogador, numa das mais belas cenas do filme. São evocados gols brilhantes, enquanto o carteiro, de interpretação cheia de idolatria e doçura, narra com os olhos brilhando aqueles instantes que, na verdade, já haviam se tornado mais seus do que do próprio feitor. “Um passe”, diz Cantona, “nós temos que acreditar nos nossos parceiros. Sempre. Senão, estamos perdidos”. A generosidade da fala, ao relegar o mérito de uma ação individual pela articulação de um esforço coletivo, condensa a narrativa como um todo e, no limite, expõe a crença de um cineasta que, passados mais de sessenta títulos, ainda vê o cinema como motor de transformação social.
Na era pós-moderna, talvez ainda seja o futebol um dos grandes fazedores de mitos. Nada mais justo que evocar um deles, como Cantona, para dar esperança aos homens. Por isso, o cinema e o futebol, em Ken Loach, são essencialmente políticos.
* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 013, novembro/2009.