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Invictus


Invictus (2009). Foto: Divulgação.

Por Josiane Orvatich

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em 1871, escreveu O nascimento da tragédia no espírito da música, em que discutiu, sobretudo, o nascimento do pensamento racional no Ocidente. Esta discussão veio em forma de análise da tragédia grega, gênero de dramaturgia teatral anterior ao aparecimento da dialética socrática, esta responsável pelo apaziguamento da catarse em nome da argumentação lógica.

O que esta reflexão tem em comum com o novo filme de Clint Eastwood, Invictus (2009), é o que vamos notar do que Nietzsche diz de um dos maiores dramaturgos gregos, Eurípedes. Este, autor do clássico Medeia, teria antecipado a racionalidade de Sócrates dentro de sua obra, iniciando, assim, o fim da tragédia e o começo do melodrama.

A conclusão de que a vida, a despeito de toda condição infortunada a que o homem é exposto, é poderosamente alegre, deve ser o “consolo metafísico” despertado pela tragédia, segundo o filósofo. Esta seria a função do coro que canta o lamento, mas ao mesmo tempo representa a eternidade do homem que persiste, independente da individualidade mortal do herói abatido.

Diminuir a relevância do coro (e, consequentemente, da música) foi o primeiro indício de distanciamento de Eurípedes da tragédia. Introdução do drama individual, excessivamente subjetivo e psicológico, necessidade do herói em argumentar sobre seus atos, uma vez que a “compaixão trágica” já não é garantia frente ao espectador, ser otimista (no otimismo está contido a morte da tragédia, dirá Nietzsche), suscitar medo e valorizar o sublime ético frente ao estético: todas estas características formam um melodrama, mas não uma tragédia.

Estivesse Nietzsche preocupado somente com a arte, ele escolheria a que mais lhe interessasse (como fez, negando futuramente a Wagner, amigo que considerou rendido ao melodrama). Porém, o drama de Eurípedes encontrou-se com o pensamento de Sócrates e eis que o mundo precisou de heróis glorificados, a começar pelo próprio filósofo grego, ao morrer condenado a tomar cicuta – morte que concorre, em emoção melodramática, com a de Jesus Cristo.

A tragédia, princípio anti-individual por excelência, de heróis acometidos pelo destino ou pela própria falha de caráter e soberba, foi substituído pelo homem de quem se tem piedade. A catarse, continuará Nietzsche, é substituída pelo já citado sublime ético.

Nelson Mandela, personagem de Invictus, nos desperta, completamente, o sublime ético. Tanto quanto em Eurípedes, a obra de Clint Eastwood é um melodrama. Para além da conjectura nietzscheana de que isto é, tal qual o fim da tragédia, o fim de uma civilização menos cristã e, portanto, muito melhor, segundo ele, a questão é que a detecção do filósofo alemão aponta para a necessidade do melodrama como forma de narração e construção da ética no discurso ficcional.

Mandela argumenta, no filme de Eastwood, o tempo todo, a fim de justificar seus atos. Seu sofrimento individual, reforçado pelo personagem de Matt Damon, porta-voz da tomada de consciência do espectador sobre quem é aquele homem – fechando-se na cela em que o líder sul-africano passou trinta anos, a fim de simular a sensação que este devia sentir quando lá estava, além das inúmeras vezes em que demonstra e fala sobre sua admiração e surpresa com tamanha compaixão a seus inimigos – é a essência da narrativa melodramática, enraizada no otimismo e na piedade, sentimento cristão por excelência.

Que a ética esteja rodeada de cristianismo em nossa civilização, não é nenhuma novidade, para infelicidade de Nietzsche que a repudia por formar homens fracos, incapazes de suportar o sofrimento, homens que precisam de redenção para se sentir purificados.

O sublime ético é invejável, nos faz desejar alcançar o patamar impossível do herói, porém torna a vida um lugar em que não há espaço para a dor, é preciso ser invencível, triunfar. A tragédia de Édipo Rei é como a de Selma, em Dançando no escuro (2000), de Lars von Trier. Repletos de sofrimento e sem saída, trazem a catarse da injustiça e não a ilusão do inabalável: Édipo fere os olhos e sangra, torna-se cego; Selma acreditava que era uma heroína melodramática, mas ao ser condenada à morte desespera-se e desmaia ao ser encapuzada para a forca, precisa ser amarrada a uma tábua para ficar em pé.

Nelson Mandela, de Clint Eastwood, não. Este se mantém, invejavelmente, invicto.

Janeiro, 2010.


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