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O barba ruiva (1965). Foto: Divulgação.

Akira Kurosawa, 100 anos
Por Suzana Tamae Inokuchi

Este ano é comemorado o centenário de nascimento do diretor cinematográfico japonês Akira Kurosawa (1910-1998), nascido em 23 de março de 1910. Este diretor, que iniciou sua vida artística através da pintura, foi largamente influenciado por seu irmão mais velho, Heigo. Ele o ensinou a nadar no limiar do afogamento; fez com que o menino Akira encarasse o medo de frente ao fazer uma incursão aterrorizante aos destroços de um incêndio e a seus corpos carbonizados. Foi seu irmão também que o aproximou do cinema, primeiramente como espectador e, posteriormente, ao se tornar um benshi, ou seja, um narrador do cinema mudo japonês. O suicídio de Heigo – que se desiludiu com o advento do cinema sonoro – teve grande impacto na vida de Kurosawa.

Além dele, existiram em sua vida dois mestres: o primeiro deles foi o professor de ensino primário Seiji Tachikawa. Ele era um professor progressista que ia contra a ideia da época de ensinar arte através da simples cópia de modelos, desejava que cada criança expressasse o que imaginava. Isso foi impactante para o diretor, e o acompanhou por sua vida artística como um todo. O outro mestre, já depois de iniciada a sua carreira cinematográfica como diretor-assistente e roteirista do estúdio PCL (Photo Chemical Laboratory), em 1930, foi Kajirō Yamamoto (1902-1974), chamado carinhosamente de Yama-san. Kurosawa atuou por vários anos como assistente deste diretor, aprendendo muito com ele sobre a sétima arte. No final, dirigia, praticamente sozinho, seções inteiras dos filmes de Yamamoto.

Apesar disso, quando chegou o momento de entoar o “gravando” em seu primeiro filme como diretor, no set de filmagem de Sugata Sanshirō (também conhecido como A saga do Judô), sua voz tremeu devido à responsabilidade da nova função. Após a finalização do longa-metragem, foi marcado um exame, no qual diretores e sensores avaliavam o resultado do primeiro trabalho de um novo diretor. Os sensores estavam inclinados a reprovar Kurosawa, mas o diretor Yasujirō Ozu (1903-1963) começou a aplaudir de pé o filme, não dando oportunidade para que os sensores manifestassem a sua desaprovação.

A filmografia do diretor conta com 31 filmes, nos quais atuou como diretor. Entretanto, há uma controvérsia envolvendo Asu wo tsukuru hitobito (Aqueles que constroem o amanhã), dirigido por ele, juntamente com Hideo Sekigawa e Kajiro Yamamoto. Kurosawa não ficou contente com o resultado final, devido aos diversos cortes empreendidos pelo estúdio Tōhō (empresa que incorporou a PCL, tornando-se a empregadora do diretor), não o creditando como um de seus filmes. Dentre estes filmes, podemos destacar os subconjuntos de filmes: Rashōmon (1950), Os sete samurais (1954), A fortaleza escondida (1958) e Yōjinbō (1961); os filmes shakespearianos Trono manchado de sangue (1957), Homem mau dorme bem (1960); O barba ruiva (1965) e Dodes’ka-den – o caminho da vida (1970); e Yume, ou Sonhos (1990) e Mādadayo, ou Ainda não (1993).

O primeiro agrupamento de filmes – Rashōmon, Os sete samurais, A fortaleza escondida – refere-se, primeiramente, à fama internacional conquistada pelo diretor, a partir da influência exercida por Kurosawa no Ocidente. Todos os três títulos foram adaptados para o cinema ocidental. Rashōmon se transformou em O ultraje (1964), dirigido por Martin Ritt, ambientado no oeste dos Estados Unidos. Os sete samurais deu origem ao clássico do gênero western norte-americano Sete homens e um destino (1960), do diretor John Sturges. A fortaleza escondida foi uma das inspirações para que George Lucas criasse a sua saga em seis volumes Guerra nas Estrelas (Star Wars), iniciada em 1977, com o episódio IV, intitulado Uma nova esperança. Destaca-se a figura dos guerreiros jedi, que se assemelham aos samurais com suas espadas. Já Yōjinbō deu origem a dois filmes distintos: a adaptação para o faroeste spaghetti não creditada a Kurosawa, Por um punhado de dólares (1964), do diretor italiano Sergio Leone; e o remake autorizado O último matadorLast Man Standing (1996), dirigido por Walter Hill e estrelado por Bruce Willis. Em vez do western, os personagens são gângsters durante o período da Lei Seca nos EUA.

O grupo seguinte é composto por dois marcos na carreira cinematográfica do diretor. O primeiro título, O barba ruiva, representa o momento em que se dá o rompimento entre Kurosawa e Toshirō Mifune, que foi o protagonista por excelência de grande parte da filmografia do diretor. O motivo do desentendimento entre eles foi o atraso nas filmagens do longa, que obrigou o ator a ostentar uma longa barba avermelhada, que não era postiça. Por este motivo, Mifune se viu impedido de trabalhar em outros filmes durante dois anos. Já Dodes’ka-den – o caminho da vida é o primeiro filme em cores do diretor. Nesse momento, há uma nova aproximação do diretor com a pintura no uso das cores, que lembram a pintura de Mondrian e da primeira fase de Kandinski, segundo a apresentação do DVD. Uma das casas possuem desenhos infantis colados às paredes, retratando os bondes que são uma das imagens constantes do filme.

Yume e Mādadayo possuem um caráter autorreferencial característico da fase posterior de Kurosawa. O filme episódico Sonhos – que inicia cada parte com a frase “Eu tive um sonho assim...” – apresenta três alter-egos do diretor, dois atores mirins representam a infância do diretor, nos episódios O casamento da raposa e A festa do pessegueiro. O terceiro alter-ego, que aparece em mais de um episódio, é representado pelo ator Akira Terao, cujo nome possui sonoridade idêntica e ideogramas distintos aos do nome do diretor. Diversos sonhos remetem ao período da guerra ou ao perigo da energia nuclear, temas próximos à realidade de todo o japonês. Entretanto, os sonhos mais significativos são Os corvos e A aldeia dos moinhos. O primeiro é um encontro fictício entre Kurosawa e seu pintor ocidental preferido, Vincent Van Gogh, pouco tempo antes do suicídio deste. Em uma exposição, o alter-ego do diretor entra em um quadro e percorre, de início, as paisagens reconstituídas dos quadros de Van Gogh e, mais tarde, os próprios quadros e desenhos do pintor. Já o sonho com a aldeia dos moinhos traz um momento bucólico e de esperança quanto ao futuro, caso a natureza e os valores sejam preservados.

Mādadayo é o último filme dirigido por Akira Kurosawa, e é uma afirmação de vida do diretor, amalgamada com as últimas décadas de vida de um professor e escritor aposentado Hyakken Uchida, desde o ano de 1943, quando o professor resolve se afastar do magistério para se tornar escritor. O título refere-se à pergunta e resposta Madakai? (Já posso ir, ou já está pronto?), Mādadayo! (Ainda não), usadas pelas crianças japonesas ao brincar de esconde-esconde. No caso, essa pergunta é entoada pelos ex-alunos durante a festa anual em homenagem ao professor, e a resposta dele significa “Ainda não estou pronto para morrer”. Também Kurosawa ainda não estava pronto para abandonar o cinema após este filme, porque produziu ainda dois roteiros que não teve a oportunidade de filmar: Depois da chuva (1999) e Sob o olhar do mar (2002). Estes títulos foram dirigidos, respectivamente, por Takashi Kōizumi e Kē Kumai.

Dezembro, 2010.

 
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