A cor da romã (1687). Foto: Divulgação.Por Sara Bonfim
Em 1968, o cineasta georgiano Sergei Parajanov fez um filme sobre o poeta Sayat Nova. De origem armênia, Nova viveu no século XVIII e foi trovador do rei Heráclius II. Apaixonado pela princesa, sofreu por não ser correspondido e morreu isolado em um mosteiro durante a invasão do país pelo imperador persa Agha Mohammed Khan.
As cenas iniciais já anunciam o espetáculo visual do filme. São da infância do poeta. Como em uma tarde de verão vivida aos oito anos que jamais se esquece, o menino deita ao sol com milhares de livros lavados. Enquanto secam, ele dorme ouvindo as páginas movidas pelo vento. Parece que o mundo inteiro gira ao redor daquele momento.
ROMÃ E O COMUNISMO
O trovador Sayat Nova é considerado um mártir na Armênia. Morto por soldados persas ao reafirmar a fé cristã, é o modelo do homem que se recusa a desistir da crença. Filmado na região durante o regime comunista, o caráter mítico levou a obra a ser extremamente perseguida. Falar de tradição na Armênia sempre foi uma questão delicada. O país foi o primeiro a aceitar o cristianismo no mundo, no entanto, foi proibido de adotar a religião durante as diversas invasões que sofreu.
O filme original foi condenado pela censura e proibido em vários países. Só foi permitida a exibição após o corte das cenas consideradas subversivas. O resultado passa a se chamar A cor da romã. Quando, no início, as romãs sangram, anunciam a relação de vida e morte. Mas também são como o filme, que cortado, sangra. Cinco anos após o lançamento Parajanov foi preso. Passou anos na cadeia sob as absurdas acusações de homosexualismo e tráfico de ícones.
Não só no tema o cineasta destoava do regime. Assim como Andrei Tarkovsky, por quem nutria grande admiração, suas ideias eram muito diferentes do racionalismo de Dziga Vertov e Sergei Eisenstein. Orgânico, seu cinema priorizava o movimento ao corte de câmera. Ao observar a afirmação de Tarkovski de que “a montagem não pode determinar o ritmo, na verdade, o fluxo do tempo num filme dá-se muito mais apesar da montagem do que por causa dela”, vemos que A cor da romã segue esse princípio. Mesmo com a edição alterada, manteve o ritmo que deveria. O tempo dilatado comove, por vezes cansa, mas nada parece fora do lugar.
A PLÁSTICA DE PARAJANOV
Parajanov também era músico, escritor e artista plástico. Fazia colagens surrealistas que transpôs para o cinema. Em A cor da romã abusou dos conceitos da arte bizantina para expressar a realidade espiritual. Os personagens se mantêm rígidos como quadros vivos. A cena em que o monastério flutua em um fundo negro nos lembra os ícones das igrejas ortodoxas que, achatados, pareciam de outro mundo.
As molduras, o caráter folclórico e os recortes mal feitos poderiam ser muito bregas, mas assim como as iluminuras retratadas, vêm de uma arte primitiva. É a busca por essa inocência que torna Parajanov moderno, apesar de tão tradicional.
Com esse olhar o diretor mostra a infância, a juventude e a velhice de um homem. Na cena em que o poeta criança segura a mão de si mesmo adulto, percebemos como o inevitável curso da vida é retratado. Assim como o cineasta, para certas pessoas a infância nunca morre.
Fevereiro, 2010.