Alice (1988). Foto: Divulgação.Alice para quem gosta de AlicePor Nathalia Saliba Dias
De todas as versões de Alice no país das maravilhas para o cinema há uma especialmente imperdível, Neko Z Alenky, traduzida somente como Alice (1988), do diretor tcheco Jan Svankmajer.
Se pudesse definir em uma palavra esse filme, diria: bizarro. Em duas, diria: maravilhosamente bizarro.
Conhecido pelos curtas de animação surrealistas, produzidos entre os anos 1960 e 1980, Svankmajer tem em Alice um prato cheio. Essa combinação de animação e nonsense é um terreno fértil para o diretor desenvolver a história de Lewis Carroll. E não é à toa que Alice é seu primeiro longa-metragem. Não é de se espantar, também, que outros diretores de renome como Tim Burton e Terry Gilliam tenham sido fortemente influenciado pela sua visão.
O casamento perfeito ocorre porque o texto original de Alice no país das maravilhas (1865), longe de ser um colorido conto infantil, desperta medo e estranhamento. A versão Walt Disney (1951) da bela menina que descobre um mundo encantado cheio de acontecimentos inusitados e engraçadinhos, não faz parte do universo de Lewis Carroll, apesar de tantas versões cinematográficas investirem pesado nessa leitura.
A animosidade do chapeleiro maluco (“Não há lugar! Não há lugar!”), as mudanças constantes de tamanho, a não identificação de si mesma, o desconhecido e o punitivo são elementos centrais do clássico vitoriano.
É de se estranhar que o livro possa ser visto como algo alegre e agradável. Parece muito mais adequado pensar que a obra do século XIX produza um universo sombrio e desconcertante. Se pensarmos assim, o filme de Svankmajer está mais próximo da obra original do que qualquer outra versão realizada até agora.
Essa leitura não usual da obra, mas extremamente fiel ao seu espírito, é explorada com maestria pelo diretor. Logo de cara percebemos que o filme é diferente. As cenas iniciais são um close-up da boca de Alice, como se ela estivesse lendo o livro. Até que a menina diz: “Agora, você verá um filme.”
A protagonista, muito bem interpretada por Kristyna Kohoutova, é altamente lacônica, como o filme em geral. À exceção da criança, único ser humano presente em toda história, nenhum personagem fala. E aqui começa o estranhamento, e a diversão, do filme.
Composto em stopmotion, todos os outros seres são criaturas medonhas: esqueletos de animais, meias, bichos de pelúcia maltrapilhos, bonecos de madeira, baldes, cartas de baralho (o que lembra as ilustrações da recente publicação lançada pela Cosac Naify), e até Alice, quando diminui de tamanho, aparece como uma boneca de porcelana.
Desse catálogo de seres estranhos, um exemplo memorável é um dos lacaios do coelho, uma figura que parece ter vindo direto do inferno de um dos quadros de Jheronimus Bosch.
Outro ser inesquecível é o coelho empalhado. Vale à pena descrever a cena em que ele aparece pela primeira vez no filme: dentro de uma vitrine com a inscrição “Oryctolagus cuniculus”, o coelho arranca com destreza os pregos que o prendem ao chão, puxa um punhado de grama que enfeita a caixa, retira uma gaveta escondida, encontra um colete, um par de luvas e uma tesoura, veste-se com agilidade, usa a tesoura para quebrar o vidro e sai. A partir desse momento, começa a fugir muito atrasado, tentando, ao mesmo tempo, juntar e comer a palha que cai do seu corpo. Entra no buraco, que no filme é uma gaveta de escrivaninha cheia de compassos, esquadros, réguas e outros objetos de estudo científico, e some.
Além da estranheza dos personagens, outros fatores colaboram para a composição bizarra do filme. A sonoplastia é um deles. Não há sequer uma música. O que se ouve em alto e bom som são os barulhos dos metais enferrujados, da chave na fechadura, da porta rangendo, dos passos pesados no chão, da água correndo. O mesmo ocorre com a iluminação, predominantemente artificial e escura.
Num primeiro momento, tudo isso parece muito tosco, mas fica evidente que as escolhas de Svankmajer não são nada acidentais.
Para começar, há uma série de referências ao mundo científico, já presentes no original de Lewis Carroll. Vale lembrar que o autor era professor de matemática em Oxford e que Alice no país das maravilhas foi publicado apenas seis anos após A origem das espécies, grande marco da Era Científica. Desse ponto de vista, a escolha de um coelho empalhado numa vitrine parece muito lógica. O mesmo acontece com os esqueletos de animais, compassos, réguas etc.
Essas alusões constroem um mundo muito sólido e nos fazem pensar que nada do que está lá, no mundo das maravilhas, não está aqui, também, no mundo “real”. Essa ideia está presente também na cena final em que Alice acorda e olha o quarto a sua volta. Todos os objetos que apareceram na história estão ali: a xícara de chá, as pedras, o castelinho de brinquedo, a carruagem, só fica faltando uma peça... A vitrine do coelho está vazia.
Entre as múltiplas leituras que o livro oferece, o questionamento dos limites entre sonho e realidade, das verdades físicas, das convenções sociais e até mesmo da nossa própria subjetividade, parece perfeito para a estética surrealista desenvolvida por Svankmajer. Para quem aprecia e conhece o texto de Alice no país das maravilhas, o filme é uma bênção!
Abril, 2010.