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Coração vagabundo
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Coração vagabundo


Coração vagabundo (2009). Foto: Divulgação.

Por Murilo Wesolowicz

“Uma nova forma do Belo desagrada sobremaneira o público, o qual fica, a cada vez que ela surge, tão irritado e confuso que acaba por empregar duas expressões estultas – uma, que a obra é completamente ininteligível; outra, que a obra é completamente imoral.”
Oscar Wilde em A alma do homem sob o socialismo

É compreensivo que o público fique confuso ou irritado quando um artista cria uma nova forma de expressão. Isto causa estranheza, desconforto, incômodo. Porém, também seria natural que, após uma contundente reflexão, tanto do público quanto da crítica, tal obra viesse a ocupar o lugar que lhe é devido, o esquecimento ou a relevância.

No Brasil, parece-me, há um terrível costume de desvalorizar e minimizar o que é de origem nacional, seja na música, nas artes plásticas, no cinema, no teatro ou na literatura – o que não ocorre com nosso futebol.

Na década de 1960, durante a ditadura militar, o Brasil era marcadamente dualista. Havia a possibilidade de ser nacionalista de extrema direita ou revolucionário de extrema esquerda. E foi neste cenário de embrutecimento maniqueísta que Caetano Veloso surgiu, criando o movimento da Tropicália, misturando a profana guitarra elétrica dos Estados Unidos com os tambores afro-baianos. Mais do que isso, fazia uma dura crítica ao fanatismo político que se instaurava. Vieram as vaias, os ataques midiáticos e a incompreensão.

No documentário Coração vagabundo (2009), Caetano discorre sobre assuntos variados. Entre eles, é possível perceber ao longo do filme o seu profundo descontentamento com o provincianismo brasileiro. A impressão é que a obra artística do País está fadada a não obter o reconhecimento mundial. Em certo momento, Caetano, talvez o compositor brasileiro mais reconhecido internacionalmente, diz que durante uma entrevista para uma emissora de televisão novaiorquina sentiu-se acanhado, subdesenvolvido, falando um inglês arrastado, sem fluência.

Salvo poucos produtores brasileiros que têm uma visão internacional, e que tentam uma circulação ao redor do mundo com seus trabalhos, as obras artísticas brasileiras pouco se arriscam fora do nosso território. É uma submissão inerente a nossa nacionalidade. Ver Caetano ocupando por uma semana um dos mais famosos teatros do mundo, o Carnegie Hall, em Nova Iorque, é um alento. Assim como acompanhar a sua turnê mundial por Tóquio e Kioto, além da própria Nova Iorque, e descobrir o Brasil internacional. É bom ouvir o sotaque de uma japonesa cantando “meu coração vagabundo...”, ao invés dos cansativos apontamentos “Ronaldo! Ronaldo!” quando se avista um brasileiro. O documentário ainda traz uma emocionante cena com Michelangelo Antonioni, para quem Caetano fez uma música, e com Pedro Almodóvar, amigo do cantor.

Coração vagabundo, ao contrário do que a publicidade está vendendo – à custa de um relance de nu do cantor no início do filme –, não é um documentário sobre a intimidade de Caetano. O jovem diretor Fernando Grostein Andrade (à época com apenas 23 anos de idade), acompanhou a turnê A foreign sound, entre 2003 e 2005, munido de uma câmera digital, tornando possível a proximidade – e não a intimidade – que resultou em um mosaico prazeroso de reflexões de Caetano, seguidos da bela trilha sonora de suas canções.

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 011, outubro/2009, seção Brasileiros.


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