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O contador de histórias (2009). Foto: Divulgação.

O contador de histórias
Por Murilo Wesolowicz

O novo filme de Luiz Villaça, O contador de his­tórias (2009), passa por três estágios distintos. O primeiro deles aborda a questão econômica social do Brasil. A his­tória tem início na década de 70, durante a ditadura mili­tar, quando a FEBEM (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor) não atendia apenas a menores delinquentes, mas também servia de abrigo para crianças carentes que lá, segundo os comerciais televisivos da época, teriam uma chance de estudar e ter uma boa profissão.

Logo no início do filme, o protagonista da his­tória, então com oito anos, é deixado pela sua mãe nessa instituição. Algumas cenas encarregam-se de mostrar que não era bem assim que as coisas funcionavam. As assisten­tes sociais que trabalhavam na FEBEM já sabiam que ne­nhuma criança sairia de lá melhor do que quando haviam entrado. O clima entre os “alunos” nada tinha de harmô­nico e acolhedor. E a fugaz temática social está posta em mais um filme nacional.

Então vem o segundo momento. A história gra­dativamente vai abandonando esse assunto e passa a ga­nhar fôlego para se desenvolver. Roberto Carlos Ramos, já com 13 anos, tem uma nova chance ao conhecer uma pesquisadora francesa que se encanta por ele e o deixa morar em sua casa - ela realiza uma pesquisa sociológica no Brasil. Roberto começa a descobrir os encantos do co­nhecimento. Aprende a ler e a escrever, conhece lugares diferentes e é apresentado a novas situações: compras no mercado, futebol no estádio e ao carinho e à atenção que nunca havia recebido. Ainda que calcado por alguns cli­chês, esse é momento alto do filme.

Chegamos então ao terceiro momento. A histó­ria se contamina com mensagens sociais. A pesquisadora torna-se a infalível mulher que não pode deixar que nada de mal aconteça ao menino e se utiliza de discursos in­gênuos para defender a causa de seu protegido. Quando precisa voltar à França, pois o visto de permanência no País está vencendo, ela procura o cônsul francês e, como em um passe de mágica, por tamanha rapidez, consegue não só a adoção de Roberto, mas ainda que ele se mude imediatamente com ela para sua terra natal.

O contador de histórias é carregado de boas ideias e intenções, mas que raramente se concretizam na tela. A todo instante temos a impressão de que o filme vai engrenar, mas quase sempre falta algo. Ora é um apelo moral desnecessário, ora é uma destreinada interpretação do elenco juvenil.

Mas sem dúvida há boas passagens no filme. Quando, no início, ele inventa ter roubado um banco com a família. Os personagens são mostrados com visual “Jackson Five”, o garotinho de oito anos, com um enor­me black power, rendendo os guardas do banco com uma arma que mal consegue segurar. É uma cena primorosa. Ou quando ele e mais um coleguinha na FEBEM desco­brem que para serem respeitados é preciso falar o maior número de palavrões possíveis. Então os dois pequenos sentam de frente um para o outro e, concentrados e de­terminados, começam a exercitar o sujo vocabulário com uma ingenuidade comovente.

Luiz Villaça entrou em um universo não muito explorado pelo cinema brasileiro, a imaginação fantástica infantil, com final feliz. Acertou em algumas coisas e errou em outras. E não adiantou homenagear Os incompreendi­dos (1959) em uma cena em que Roberto corre para o mar, ainda existe um longo caminho a percorrer, não só a ele, mas ao nosso cinema de maneira geral, para que con­siga tornar-se mais maduro e constante.

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 010, agosto/ 2009, seção Brasileiros.


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