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Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966). Foto: Divulgação.

Por Josiane Orvatich

Não é de hoje a ideia dos jogos sórdidos emergidos de uma atmosfera ingênua ou mesmo infantil. O ritual de iniciação que deve submeter os iniciados à crueldade, participando dela ativamente ou como meros espectadores, já encontra no Marquês de Sade a bela Eugénie, personagem de “tez branca deslumbrante”, adolescente que será iniciada pela Senhora de Saint-Ange e Dolmancé nos “mistérios mais secretos de Vênus” no romance filosófico A filosofia na alcova (1795). Para tal, Eugénie será submetida discursivamente e, praticamente, a toda sorte de sexualidade anticristã, culminando na degradação de sua própria mãe e na descoberta da nobreza da crueldade.

Muitos elementos dessa tradição encontram-se no filme Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966), de Mike Nichols. Um casal de meia-idade (Martha e George, vividos por Elizabeth Taylor e Richard Burton) defronta-se com um casal mais jovem (Sandy Dennis e Georges Segal) que acaba de chegar à cidade, submetendo-os aos jogos sórdidos das suas desavenças e fantasias. Os jogos que são inclusive nominados (“Humilhem o anfitrião” ou “Peguem os convidados”), pois alguns já fazem parte de um repertório fixo do casal, acontecem numa única noite, visando o ferimento mútuo entre George e Martha e dos convidados.

Tamanha sordidez, construção aparentemente gratuita da crueldade, foi baseada em peça de Edward Albee, sucesso da Broadway nos anos 1960, e quase vetada como adaptação para o cinema, já que existia na época o Código de Produção, elaborado por membros mais conservadores da sociedade estadunidense pós-depressão de 1929. Esse Código foi abandonado em meados da década de 1960, possibilitando não só produções, mas premiações no Oscar como Perdidos na Noite (1969), classificado na ocasião, por muitos, como pornográfico.

Além das excelentes atuações femininas de Elizabeth Taylor e Sandy Dennis – a primeira corroída por sua própria imaginação, sustentada por um homem aparentemente fraco, mas que suporta sua loucura em nome do amor; e a segunda, “inocente” no sentido de ignorar sua escuridão que, ali, aflora impiedosamente e cujo marido é um homem ambicioso e realmente inocente do preço que se paga para realizá-la – o filme é uma resposta ao conservadorismo atual (talvez um código de produção velado) que tem medo de enxergar os “crimes de amor” de uma sociedade em que qualquer variação da sexualidade é tida como doença. Ou ainda que possamos assistir a Milk (2008) desde que se fale de sua carreira política e não de sua vida sexual; ou a Brokeback Montain (2005) desde que saibamos sobre a heterossexualidade dos atores – sobre este tema ver texto de João Moreira Salles em piauí, edição 29; ou mesmo assistir à peça teatral em cartaz nos palcos brasileiros, do mesmo autor Edward Albee, com José Wilker no elenco e direção de Jô Soares, em que o personagem apaixona-se por uma cabra, mas cujo texto é transformado em humor barato ao estilo de um Sai de Baixo, programa exibido pela TV Globo entre 1996 e 2002, distanciando assim qualquer possibilidade de aproximação com a vida cotidiana, “real” do espectador.

É por isso, pelo menos, que vale a pena ver Quem tem medo de Virginia Woolf?

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 006, abril/ 2009, seção Acervo Básico.


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