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Manhattan (1979). Foto: Divulgação.

O homem e a cidade
Por Josiane Orvatich

É na ilha de Manhattan, na cidade de Nova Iorque, tal como a constrói Woody Allen, assumidamente fictícia, sem dever nada à realidade, mas resultado de uma coletânea de imagens que ele assume ter apreendido de outros filmes de Hollywood, em que a cidade é protagonista (Eric Lax, Conversas com Woody Allen), que os caminhos dos personagens em relação a sua individualidade são traçados.

Os espaços, na narrativa, se apresentam, de início, muito amplos e, aparentemente, livres. A aura de celebração da cidade se mostra já nos planos iniciais, gerais, em que imagens de prédios, ruas, feiras, obras em andamento, parques, peixarias, restaurantes, museus, o metrô, um estádio de futebol, uma infinidade de marcas de luxo ou bastante populares como a Coca-Cola, a Broadway e até mesmo uma pilha imensa de lixo nas ruas se encerram na imagem de fogos de artifício sobre a cidade como que na comemoração de um primeiro dia de ano.

Toda essa celebração, aos poucos, irá se diluir ao percebermos os espaços específicos em que a ação dos personagens ocorre, tal como já podemos observar, nos primeiros minutos de filme, a narração em off de Isaac (Woody Allen), em cinco tentativas de descrever a cidade para a introdução do livro que está escrevendo. Da primeira tentativa em que Isaac a “romantiza em excesso”, ao dizer que Manhattan “existe em preto e branco, ao som de George Gershwin”, passando pela terceira, quando a acusa de ser a imagem da “decadência contemporânea e falta de integridade individual”, até encontrar certo equilíbrio, na quinta tentativa, em que simplesmente assume ser “ora romântico, ora duro ao retratá-la”, concluindo que “Nova Iorque era a cidade dele, e sempre seria”.

A utilização dos espaços pelos personagens se inicia com essa sensação de posse e liberdade, lugar em que o indivíduo parece, potencialmente, poder tudo – a cidade é lugar de exploração e aventura. Tracy (Mariel Hemingway), Isaac, Yale (Michael Murphy) e Emily (Anne Byrne Hoffman) frequentam bares da moda, fazem agradáveis passeios noturnos, vão a museus, teatros, livrarias e lojas de departamento. Yale se dá ao luxo de comprar um carro que os leva a novos passeios e, de diversas maneiras, enfim, possuem a cidade, usufruem dela – e assumem, como diz Isaac, que “não se pode viver nesta cidade sem uma boa renda”, o que ele constata depois de pedir demissão.

Entre todas essas cenas de conquista e domínio da cidade realizadas no dia a dia por esses personagens, surge um elemento desestabilizador, tanto no plano da narrativa romântica, como no plano espacial dessa narrativa: a personagem Mary (Diane Keaton), amante de Yale. Relembrando a trama, à la quadrilha de Drummond, Mary é amante de Yale, até que eles rompem e Isaac se torna namorado de Mary, tendo por isso rompido com Tracy, de dezessete anos, e finalmente, Mary rompe com Isaac para ficar definitivamente com Yale, que se separa.

Inicialmente, Isaac e Mary se desentendem por uma série de discordâncias artísticas e intelectuais – entre elas, e sobretudo esta, Mary não gosta de Ingmar Bergman. Será um passeio noturno, ao acaso, que os aproximará, formando a clássica imagem do cartaz, com suas silhuetas recortadas pelo rio East e a ponte de Queensborough. Essa proximidade entre os dois nos levará ao espaço de Mary e ao início da diluição da celebração e da posse da cidade.

O apartamento de Mary é o único cenário, até então, oposto aos que representavam os sentimentos de liberdade e amplidão; seja pela proximidade com que a câmera se coloca dos corpos dos personagens, reduzindo a sensação de amplitude, seja pela quantidade de objetos na casa, pela presença de um cão que não vemos, mas late o tempo todo, e pelo telefone que também não cessa de tocar, a claustrofobia se instaura de imediato, desestabilizando a relativa tranquilidade com que a aventura na cidade podia desdobrar-se. Vale lembrar que após seu encontro amoroso com Mary, Isaac se muda de apartamento devido a suas novas condições financeiras, o que o coloca em um espaço bastante claustrofóbico também.

Mais adiante, na trama, Mary liga para Isaac, do seu apartamento, nervosa, depois de frustrada tentativa de sair com o amante, e o convida para um passeio, justificando que ali, sozinha, já estava “ficando louca”. As atitudes de Mary começam a revelar a solidão dos outros personagens e o quanto se refugiam dela em relacionamentos amorosos. Com exceção de Tracy, de quem falaremos mais adiante, os três personagens principais, Mary, Isaac e Yale, se revelam cada vez mais próximos da solidão e do desamparo. A individualidade aqui não é soberana, constitutiva de uma subjetividade dominante, mas dependente das relações que justamente se encontram na cidade e no outro, revertendo a fórmula de posse: não é a cidade que pertence ao sujeito, mas o sujeito à cidade e a todas as suas relações.

A sensação de onipotência inicial do espaço celebrado em Manhattan ainda encontra outro eco contrário de Mary que insiste em afirmar que não pertence àquele lugar, mas sim à Filadélfia – e descreve três aspectos que a diferenciaria dos nova-iorquinos: na Filadélfia se acredita em Deus, não se fala sobre orgasmos em público e seus pais não tinham amantes. Suas afirmações incomuns sempre encontram uma plateia com dificuldade em entender sua comparação, mas a marca do estranhamente espacial fica posta.

Falta-nos, então, falar de Tracy. Isaac, desde o início da narrativa se coloca como educador de Tracy, sobretudo pautado por sua diferença de idade: 27 anos. Considera que deve ser para ela apenas uma experiência, um “atalho” para o desenvolvimento de sua sexualidade. Porém, o que passa despercebido desse educador nada imoral, e que Tracy não só nos dá indícios, apesar de sua verdadeira paixão por Isaac, mas afirma, é que os relacionamentos devem ser curtos e transitórios. Como engana a Isaac, a aparência de donzela de roman noir, de bela garota inocente em sua juventude, parece também nos enganar em sua fragilidade: ela, nada imatura, é quem afirma sua subjetividade, com independência, sem medo da solidão, e percebe que a cidade é só um ponto de passagem – não à toa Woody Allen homenageia Casablanca (1942) na cena final, com Tracy pronta a pegar um avião para outra ilha, a Inglaterra, para estudar teatro.

* Artigo, com modificações, apresentado como palestra no II Colóquio do Grupo de Pesquisa “Literatura, cultura, linguagem: trânsitos”: A experiência moderna entre centro e periferia, sob o título “Woody Allen, Manhattan e a cidade de Nova Iorque”, em 03 de dezembro de 2010, UFPR, Curitiba, PR.

Abril, 2011.


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