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Vidas que se cruzam
Vidas que se cruzam


Vidas que se cruzam (2008). Foto: Divulgação.

Limites do feminino em Vidas que se cruzam
Por Josiane Orvatich

The burning plain (2008), de Guillermo Arriaga, muito mal traduzido no Brasil por Vidas que se cruzam – esse poderia ter sido o título (ainda ruim) de outros roteiros bastante conhecidos do diretor, 21 gramas (2003), Babel (2006) e Amores brutos (2000), caso levássemos em conta a estrutura narrativa que costura as vidas de diversos personagens – leva ao extremo a compreensão do feminino.

Arriaga, agora sozinho no projeto – por sozinho quero dizer sem trabalhar com o diretor dos roteiros citados acima, Alejandro González Iñárritu, com quem teve um desentendimento sobre a autoria desses filmes –, traz uma visão bastante dura e difícil do feminino: uma garota (Jennifer Lawrence), adolescente, a partir de sua “ainda” incompreensão sobre a mulher, representada por sua mãe (Kim Basinger), há dois anos vítima de um câncer que a levou a retirar um dos seios, internaliza uma concepção de feminino que dificilmente se permitirá, um dia, a superação dessa incompreensão. Isto é o que eu poderia apresentar sem adiantar os entrecruzamentos da trama – o desfecho não se dá num final surpreendente, mas se revela aos poucos, à medida que vamos conhecendo melhor os personagens.

Sylvia (Charlize Theron), outra personagem cuja história se apresenta de forma um tanto misteriosa, vive numa espécie de limbo desse feminino que não pôde se reconhecer como tal – o sexo ainda é um pecado grave, e não é possível entregar-se a ele sem que haja punição. Resquícios cristãos da sexualidade da mulher, sem dúvida, pairam sobre essa atmosfera, e com sua maior gravidade: quando ela se instala no interior de si mesmo e perde sua referência como cultura arbitrária.

O diretor traz, porém, em dois momentos, a perspectiva da superação dessa visão feminina “condenada”: quando a mãe da adolescente escolhe a traição do marido; e de Sylvia, ao reencontrar seu passado. Uma superação, entretanto, poderá anular a outra – perceberemos quando as peças do quebra-cabeça da narrativa se encaixarem. O risco de se entrar num círculo vicioso de incompreensões sucessivas e constantes pode ser o que aprisiona essas mulheres – a fuga dessa prisão, penso eu, seria o reconhecimento de outra mulher como uma igual, e não como uma perversa – sujeita à imoralidade, simplesmente.

Agosto, 2010.


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