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                             Capote (2005). Foto: Divulgação.

Por Josiane Orvatich

Magnetismo é a primeira palavra para descrever não somente os filmes Capote (Bennett Miller, 2005) e Confidencial (Douglas McGrath, 2006), tampouco o “romance sem ficção” A sangue frio, como Truman Capote mesmo definiu sua obra, mas toda a história que ronda a concepção deste “episódio”. Por episódio compreendo os assassinatos, o interesse de Capote pela notícia, seu envolvimento de cinco anos com as entrevistas dos assassinos, o livro em si e sua repercussão, tanto para o jornalismo como para a literatura.

O primeiro dos filmes impressiona pela atuação de Phillippe Seymour Hoffman. O perfeccionismo dos gestos e da expressão dos olhos, uma vez que a boca não se expressa por movimentos para, talvez, dar lugar exclusivo às palavras, sempre cortantes, como tiros agudos ou alfinetadas afiadas, parecem nos hipnotizar e ficamos como que reféns desta hipnose que nos anestesia para o restante do filme. Mal vemos que temos ali um assassino bastante banal, representado de um modo que não se pode compreender como pode ter gerado tanto entusiasmo em Truman.

O segundo filme surpreende ao colocar Daniel Craig em atuação excepcional. Talvez excepcional por não se esperar muito de um ator forte, fisicamente, que represente o já decadente 007 – refiro-me à expectativa de atuação, desde a saída de Sean Connery. O filme ainda ousa ao assumir uma verdadeira relação sexual entre Capote e o assassino Perry Smith, a “sangue frio”, na cela, durante uma das entrevistas. Ainda que não tenha acontecido, não importa. A ousadia se assemelha à proposta de “não” ficção do autor do livro.

O limite entre verdadeiro e falso, ou documental e ficcional está posto.

Capote escreve uma obra-prima, também segundo ele mesmo. Não sem pagar o preço que a vaidade impõe aquele que se arrisca em um projeto que vale a própria identidade, neste caso como criador de uma obra de arte. Dividido entre uma relação que o unia a um homem e a outra que o unia a si mesmo, como uma necessidade, o da própria escrita, Capote torna-se o mistério que representa a humanidade. Quase simbolicamente. Sua arrogância e sarcasmo podem tentar facilitar o julgamento que tende a considerá-lo egoísta e sórdido. Mas ali estava um homem investigando o sentido da morte e da arte. Projeto ao qual poucos se arriscam com tamanha devoção.

Assistir aos dois filmes nos dá a dimensão da impossibilidade de se compreender o episódio e a personalidade de Capote. Isto ressignifica o próprio cinema. Um filme necessita de outro para que o cinema exista. È uma cadeia infindável, como o é o pensamento.

Talvez Godard tivesse razão ao pensar o cinema como pura metalinguagem. Não é possível não falar de si mesmo – seja em forma de autobiografia ou como método para expressá-la.

Um século antes Friedrich Nietzsche já havia revolucionado o pensamento da mesma maneira. A vida de um homem é uma obra de arte. Não há limite entre vida e criação.

Espero ouvir menos o debate irrisório, depois de Nietzsche e Capote, sobre os limites entre ficção e realidade.

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 009, julho/2009, seção Acervo Básico.


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