À meia luz (1944). Foto: Divulgação.Por Josiane Orvatich
Com direção de George Cukor (Minha bela dama, 1964), batizado de “diretor de mulheres” por alguns críticos de sua época, o filme À meia luz (1944) conta com duas participações femininas de destaque, Ingrid Bergman e Angela Lansbury – a primeira, ganhadora do Oscar pelo filme, e a segunda, indicada ao mesmo prêmio como coadjuvante. Mesmo a contragosto do diretor, o que nos fica registrado é sua sutileza e precisão ao contar histórias que envolvem mulheres.
Nesta, cuja trama nos remete primeiramente a uma análise psicanalítica, um casal vive situações de opressão que levam a certo desequilíbrio ou confusão da mente. Paula Alquist, personagem de Bergman, casa-se com Gregory Anton, vivido pelo ator Charles Boyer, depois de conhecê-lo na Itália, onde se encontra desde o assassinato de sua tia, cantora, com quem morava em Londres. Aos poucos, Paula começa a duvidar de sua sanidade, pois o marido a leva a acreditar que está roubando objetos, quando na verdade ele mesmo os faz desaparecer. O suspense aumenta à medida que um investigador desconfia da situação vivida pelo casal e o assassinato da tia volta à tona.
Aquilo que poderia ter um parentesco psicanalítico – a casa em que vivem atolada de objetos antigos como um armazém inconsciente, a impossibilidade de Paula sair por imposição do marido, manifestando uma relação de dependência e claustrofóbica, e sobretudo o engano da consciência simbolizado pela luz que varia de intensidade (o título original é Gaslight, justamente a luz de lampião que oscila nas luminárias todas as noites, quando o marido sai misteriosamente) – possui anterioridade no que vamos observar dos romances de horror surgidos no século XVIII.
Eliane Robert Moraes, especialista na obra do Marquês de Sade, chamou de “conto de fadas noir” o aparecimento, nessas narrativas, da imagem do castelo em que se está aprisionado, com estranhas luminosidades, alas abandonadas, entulhos etc. Ainda a solidão da personagem de Bergman, seu estado constante de susto e ingenuidade será a base das características das mocinhas que vão surgir a partir do livro O castelo de Otranto (Sir Horace Walpole, 1764), e permanecerá em nossa cultura – também se repetirão em muitos personagens da própria Ingrid Bergman, antes que ela conheça Roberto Rossellini.
O castelo, neste caso, é a casa 19 da Thornton Square, onde se desenvolve a ação do filme, com aspecto irreal – outra característica do romance noir –, aqui representado pela possibilidade de loucura em Paula. Ela duvida de si mesma, cada vez mais aterrorizada e aprisionada.
Todo esse aparato de elementos assustadores não só modificou os rumos da literatura ocidental, como possibilitou o surgimento da psicanálise e o olhar para o obscuro, características muito presentes no século XIX e XX – basta um pequeno olhar para apenas um outro filme protagonizado pela própria Ingrid Bergman, em 1941, O médico e o monstro, baseado no clássico de Robert Louis Stevenson.
Para além da preciosa direção das mulheres – Angela Lansbury interpreta a empregada da casa –, George Cukor demonstra sua apurada técnica para construir o ritmo do suspense, arte rara tanto no cinema quanto na literatura.
* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 012, outubro/ 2009, seção Acervo Básico.