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Almas gêmeas (1994). Foto: Divulgação.

Por Josiane Orvatich

Filme de estreia da atriz Kate Winslet, ganhadora do primeiro Oscar de sua carreira neste ano por O leitor (2008), Almas gêmeas (1994) traz a surpresa de ter sido dirigido, sete anos antes de O senhor dos anéis, a sociedade do anel (2001), por Peter Jackson. O mesmo diretor ainda filmaria as continuações da saga de Frodo, O senhor dos anéis, as duas torres (2002), O senhor dos anéis, o retorno do rei (2003) e o segundo remake de King-Kong (2005).

Talvez o espanto não seja tão grande se observarmos o universo lúdico, fantasioso ou mais precisamente fantasmático que o diretor constrói para narrar a história de duas amigas adolescentes na década de 1950. As garotas, Pauline Parker, vivida por Melanie Lynskey, e Juliet Hulme, pela já citada Winslet, não se enquadram nos padrões socialmente aceitáveis para meninas da época. Dotadas de inteligência e arrogância, bem como de doenças que as fizeram viver separadas de possíveis grupos de amigos em diferentes épocas de suas vidas, as duas passam a maior parte do tempo juntas, despertando na mãe de Juliet, primeiramente, a ideia de que a relação não é muito saudável ou, em palavras mais diretas, pode tratar-se de homossexualidade.

Os momentos que passam juntas são retratados por Peter Jackson com atmosfera onírica, um tanto piegas até, propositadamente, com as garotas brincando no campo, entre flores, ou fantasiando-se de fadas e relacionando-se com príncipes. No decorrer do filme a sexualidade passa de um plano menos simbólico para ser retratada com maior realidade, em cenas na cama, na banheira e mesmo de um beijo. Porém o universo fantasmagórico, comentado acima, se fortalece, pois o desejo reforça a obsessão mútua das garotas e seus mundos interiores se confundem. Destaque para a cena em que Pauline procura a amiga num mundo de bonecos de massa, do qual o músico Mario Lanza e o cineasta Orson Welles participam. Esse universo fantasioso está longe de ser harmônico, ao contrário, ele traz sombra e escuridão prenunciando a tragédia que vem a seguir.

Baseado em fatos reais, acontecidos em 1952, o filme retrata o desajuste do feminino, numa década ainda em transição para a revolução de 1960 e apresenta uma crítica à sociedade burguesa simbolizada pelas famílias que, ao desejarem separar as duas, levou ao assassinato da mãe de Pauline, a tijoladas, pelas garotas.

Impossibilitadas de construírem um mundo próprio, tentaram eliminar aquilo que as impediria – a mãe. Entre a fantasia e a psicose, esse crime não poderia ter acontecido em outra época, com esse significado: seja pela teoria freudiana do século XIX e XX ou pela análise de Max Weber que remonta ao século XVI e ao protestantismo, a família passa a ser no Ocidente a chave das grandes questões éticas a serem respondidas.

Juliet Hulme, depois de libertada da prisão, passou a escrever romances policiais sob o pseudônimo de Anne Perry.

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 007, maio/ 2009, seção Acervo Básico.


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