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Alice (Tim Burton)


Alice no país das maravilhas (2010). Foto: Divulgação.

Por Josiane Orvatich

As três irmãs Lidell, entre oito e treze anos, e mais especificamente Alice Lidell, e suas vidas vitorianas, estiveram na mente de Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson) quando este se aventurou a escrever Aventuras de Alice no país das maravilhas (1865), e depois Alice através do espelho (1871). A história-base foi primeiramente narrada em um passeio de bote com as crianças para, após um pedido de Alice, ser escrita por Carroll.

Aparentemente, a história teria seu fim – e finalidade – somente naquela tarde de verão de 1862, restrita, portanto a umas poucas crianças, não fosse a insistência de Alice em vê-la no papel. A própria Alice – sim, Alice Lidell –, cita o biógrafo de Carroll, Morton N. Cohen*, imaginou, tempos depois, que essa história deveria ser melhor do que as outras para que ela a quisesse tanto. Tal como Alice desejou a história escrita para ela, nós, leitores apaixonados, sentimos a mesma vontade de tê-la só para nós. Difícil, então, compartilhar outras interpretações sobre a obra. No entanto, contra todas as expectativas do autor, a obra é hoje, ao lado de Shakespeare e da Bíblia, a mais traduzida em todo o mundo, o que nos impossibilita de não olhar para tantas interpretações. Logo em seu lançamento a procura pelo livro já foi maior do que a esperada. As duas mil primeiras cópias (com as ilustrações em qualidade gráfica insatisfatória) foram recolhidas, e nova tiragem foi feita. O que significa que Carroll gastou o que não tinha para garantir a beleza do livro, além de, observemos as datas, levar três anos para transcrever ao papel a história narrada às crianças. Isso é o que irá notar Morton N. Cohen acerca do não desprendimento de Carroll para com a história, ou seja, seu zelo para com a escrita e para com a apresentação gráfica nos apontam para isso.

Do mesmo modo, procuro esse zelo ao notar as tantas leituras de Alice. Agora, embalados pelo lançamento de Alice no país das maravilhas (2010), de Tim Burton, nos vemos em uma encruzilhada: quem, conhecendo a obra de Burton, não apostou ser esta a parceria ideal? O universo intrigante e obscuro do diretor encontraria o clássico do absurdo do escritor. Porém, o cinema possui produtores, nesse caso, a Disney colocou-se no caminho de um e outro, impossibilitando o encontro imaginado por parte dos espectadores. Talvez um tanto exagerado pensarmos na inocência de Burton frente à maquiavélica Disney. A animação do mesmo estúdio Disney, de 1951, tem muita “grandileza”, em palavra que o Chapeleiro Maluco de Burton utiliza para definir a “nova” Alice, agora aos 19 anos: sem “grandileza”.

A animação da década de 1950, ainda que criticada por apresentar uma meiga garotinha loira em seu vestido azul, nos traz muitas cenas inquietantes, como o encontro, para o chá, entre o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março e Alice. Os jogos de absurdo são mantidos, ainda que interpretados para um cenário que não é – como nenhum outro será – a obra de Carroll. O que espanta em Tim Burton é a retirada dos elementos fantásticos para dar lugar a uma narrativa linear, em que a disputa entre o Bem e o Mal será ponto forte para restabelecer a ordem (sim, há um elogio à ordem no filme de Burton, o que não acontece na animação) com o reinado da Rainha Branca. Parece-me que de todas as possibilidades de interpretação, essa é a mais distante do efeito desestabilizador proposto por Carroll. Tal como o próprio, a vontade é de que façam uma “reimpressão” do filme, pois esse saiu borrado.

As aventuras de Alice transformadas nas de uma garota que não pode dizer não ao casamento ficam devendo, e muito, para o filme brasileiro As melhores coisas do mundo (2010), de Laís Bodanzky, em que a adolescência é tratada com maior complexidade. Não me refiro aqui a temáticas temporais – as da era vitoriana, preservadas em Alice, e as contemporâneas, em Bodanzky. Porém, é preciso pensar em qual o sentido de, hoje, adaptar uma história como a de Carroll para um aspecto tão mastigado do século XX, o feminismo. E, ainda que não se leia como feminismo, mas que não se recuse a restrição ao duelo entre casamento e vida profissional (“útil”, como dirá Alice em Burton) de uma mulher quando lançada ao abismo do absurdo. Por outro lado, a suposta inocência de Burton se denuncia quando ele, em entrevistas, afirma ter desejado fazer um filme pouco “amalucado”, o que causa estranhamento ao observarmos sua filmografia. A repetição de que Alice está sem “grandileza” ou “faltando algo”, no filme, parece demonstrar a consciência do diretor acerca da obra que estava fazendo. Entre estúdio e diretor, as noções de autoria ficam bastante complicadas. Perdemos nós, ao esperar o que de melhor se poderia fazer, frustrados. Alice, de Jan Svankmajer, ao se pensar Alice cinematograficamente, é uma melhor, e mais perturbadora, experiência. A animação da Disney, de 1951, não deixa de ser uma jornada também interessante, afastados os primeiros receios.

* Morton N. Cohen, Lewis Carroll, uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 1998.

Abril, 2010.


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