Por Josiane Orvatich
Antoine de Baecque, historiador político e da cultura, integrante da equipe dos Cahiers du Cinéma durante quinze anos como crítico e editor-chefe, editor de cultura do jornal Libération, entre 2001 e 2006, nos apresenta, em seu livro Cinefilia, recém-lançado no Brasil pela Cosac Naify, a difícil tarefa de definir e investigar o sentido da cinefilia, “essa coisa misteriosa, ritual, secreta” (p. 19).
Situando-a no período do pós-Guerra, na França, a abrangência do que compreende por cinefilia extrapola o ato de assistir aos filmes, estendendo-se a uma atividade mais completa que engloba filmes, cineastas e também críticos e espectadores, ou seja, o texto e o debate crítico convivem com o filme na tela.
“Ir ao cinema, assistir aos filmes, isso não se compreende sem esse desejo de prolongar sua experiência pela fala, pela conversa, pela escrita. Cada uma dessas rememorações confere verdadeiro valor ao filme” (p. 33).
Partindo da leitura de revistas consideradas pelo autor “fundadoras da cinefilia”, L’Écran français, Revue du Cinéma, Les Lettres Françaises, Cahiers du Cinéma, Positif, Présence du Cinéma, De Baecque nota que a cinefilia francesa, observando a hierarquia do cinema como arte desprezada (p. 40), busca legitimar o cinema americano-hollywoodiano dos anos 1950, inventando um novo olhar sobre a cultura que não é contra o espetáculo, mas que deve partir de um também novo juízo de gosto. Esse novo juízo substitui o fundamento da antiga crítica, baseado em “temas e atores, estrelas e produtores”, e apresenta a novidade do gênero e do autor (p. 44). A cinefilia vem, sem haver planejado exatamente esse destino, legitimar novas cenas culturais e construir, portanto um olhar até então inédito sobre a cultura, a partir do cinema.
Emblemático como reflexão e metáfora dessa invenção do olhar será o filme Janela indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock, o eleito pelos “jovens turcos” à frente desse novo movimento de representação da arte, Truffaut, Rivette, Godard, Rohmer, Chabrol entre outros. Janela indiscreta “é o conto de fadas do olhar, em que um homem (James Stewart) (...) vê o mundo com tal intensidade que acaba por produzir na realidade o que esse olhar parecia ter inventado num primeiro estágio, no caso um crime”. O olhar, continuará De Baecque, é onipotente: o de Stewart inventa uma trama, o de Hitchcock a mise em scéne, o do espectador e do crítico, um filme (p. 48).
Com essa tese de que a crítica inventou um cinema, e com ele, toda uma cultura marcada pela geração defensora do cinema como arte, De Baecque poderá seguir investigando a trama decorrida entre 1944 e 1968, trazendo à tona conflitos ideológicos (Georges Sadoul e o comunismo, André Bazin e o catolicismo, revista Cahiers x Positif), filosóficos (Bergman e o plano-olhar de Mônica e o desejo, Jean-Paul Sartre e a limitação de Cidadão Kane, a moral atrelada ao estético em “A moral é uma questão de travellings”), de cultura (o cinema atinge o status da literatura como arte, o cinema engajado na política) e linguagem (a partir da mise en scéne de Hitchcock). A política apareceria, pergunta-se o autor, em abril de 1966, com a proibição de A religiosa (1965), de Jacques Rivette, momento de “sair do cinema, fugir da fascinação das imagens projetadas no escuro para vir para a luz e viver seu tempo” (p. 387). Godard, afirmará, cita De Baecque, que o caso Rivette os tirou da inocência. O governo De Gaulle (1958-69) trará outras reflexões. A rebelião de maio de 1968 enche as ruas de manifestantes e esvazia as salas de cinema. “Em meados de 1970, o cinema tornou-se claramente minoria”, e quando o cinéfilo, “atingido mortalmente em 1968, desperta de seu sonho iconoclasta, a televisão e a publicidade já invadiram o domínio das imagens” (p. 422).
De Baecque, fazendo coro ao jornalista Serge Daney, ao qual dedica o último capítulo, aponta uma melancolia cinéfila, jamais recomposta. Restaria pensar, menos melancolicamente, no perfil do novo cinéfilo, e em nosso novo contexto histórico-cultural, uma vez que foi pela invenção do olhar que se construiu uma cultura, com novas invenções deveremos continuar.
Lançamento
Cinefilia, de Antoine de BaecqueApresentação: Mateus Araújo SilvaTradução: André TellesEditora: Cosac Naifywww.cosacnaify.com.br