Por Josiane Orvatich
Sempre bela (2006), filme-homenagem de Manoel de Oliveira a Luis Buñuel e Jean-Claude Carrière por Bela da tarde (1967), me suscitou uma questão que tangencia o filme, mas, sobretudo se sobressaiu na crítica brasileira a seu respeito: o mistério da mulher.
Entre o culto da mulher como mistério (enigma) e o ódio à mulher como mistificação (mentira), dirá o psicanalista Serge André em seu livro O que quer uma mulher, está o “desconhecimento do que constitui a verdadeira questão da feminilidade, pois postulam, todas as duas, que a mulher é como um esconderijo que dissimularia alguma coisa”.
A histérica, diria Freud, representa o sujeito que não sabe de si mesmo e de seus desejos. Esse não-saber, fundamento da análise psicanalítica, porém, não se aplica somente às mulheres, é um não-saber humano. Tão complexo quanto responder à pergunta “o que quer uma mulher” é responder a “o que quer um homem”. Lacan continuará refletindo sobre a proposição de Freud, afirmando que o processo psicanalítico (consequentemente, o de uma vida que busca auto-conhecimento) necessita de um sujeito histérico.
Difícil compreender a postura superficial e descomprometida de uma crítica cinematográfica que analisa a obra de Manoel de Oliveira como um simples contemplador (sem pensamento incluído nessa espécie de contemplação) do mistério feminino.
Não é pouco comum a crítica cinematográfica desviar-se do enfrentamento de um tema – ainda mais os complexos como esse – para um olhar contemplativo da beleza feminina que, por si só, encerraria o mistério que, como tal, não permite sua investigação. Tivesse esta postura a filosofia, a literatura ou o cinema (para me deter nas áreas em que me situo) e não teríamos produção de conhecimento, debates, cheios ou não de contradições. Nem mesmo a teologia limitou-se a enunciar um redutor “mistério da fé”.
Mais fundo na questão encaminha-se o artigo de Patrícia Cardoso, publicado na Juliette Revista de Cinema em 19/02/2010 (leia aqui), em que busca relações desse feminino, mas não se contenta com ele, uma vez que o pensamento de Manoel de Oliveira vai bem mais longe.
Aproveito e indico o recém-lançado Manoel de Oliveira – uma presença, livro da Editora Perspectiva, em que Patrícia Cardoso é colaboradora, e que nos apresenta a grandeza e a complexidade do pensamento do cineasta.
Setembro/2010.